Os dois se viram abruptamente, seus corpos rígidos, tensos, como se prontos para reagir a qualquer ameaça. Mas, ao reconhecerem a figura familiar parada atrás deles, trocam um olhar cúmplice, carregado de um entendimento silencioso. Em seguida, as tensões se dissolvem, e ambos explodem em risadas de alívio, como se o peso do momento anterior tivesse finalmente se dissipado.
— Vovô! — Exclamam em uníssono, levantando-se com rapidez, como se a tensão de instantes atrás nunca tivesse existido.
— Pelo visto, ainda consigo assustar vocês com essa voz que tanto tentam comparar com a do outro velho. — Charles Wade brinca, envolvendo os netos num abraço que carrega o calor de memórias mais simples. — Os vigias me alertaram sobre dois arruaceiros invadindo o vinhedo da família. Deveria ter imaginado serem vocês. — Provoca, seu tom arranca risadas que parecem rejuvenescer o ar ao redor.
— Quando o senhor voltou? — Dominic pergunta, afastando-se a contragosto do abraço, que, como sempre, parece terminar antes do suficiente.
— Há uma semana. — Responde, depositando beijos carinhosos em suas testas, um ritual que nem o tempo ousou mudar. — Setembro se aproxima, e com ele nossa melhor safra. — Continua, seu olhar percorrendo as videiras com o tipo de amor que só um homem da terra entende. — E já que meus herdeiros preferem gravatas a vinhas, alguém precisa manter a tradição viva. — Completa, com um sorriso sagaz, deliciando-se com as expressões exasperadas que surgem nos rostos dos netos. — O que traz meus meninos de volta ao ninho?
— Saudade de casa. — Noah responde, com uma simplicidade que parece cuidadosamente ensaiada. Seu sorriso suave, oculta verdades mais profundas, aquelas que as palavras nunca conseguem alcançar.
— Sinto saudades de vocês. — Confessa, envolvendo os ombros dos netos, enquanto guia-os pela propriedade. Cada passo desperta as memórias de um tempo mais doce, quando seus risos ainda ecoavam pelos vinhedos. — Era tão bom quando tinha vocês aqui. — Continua, sua voz carrega uma nostalgia profunda ao lembrar de quando seus netos eram o centro de seu mundo, antes que a morte trágica de seu filho e nora mudasse tudo. Mesmo após meses de batalha judicial, as últimas vontades da nora prevaleceram nos tribunais, e a guarda foi concedida ao avô materno, criando um abismo que nenhum amor conseguiu totalmente transpor. — Quais as novidades? — Pergunta, notando a troca de olhares significativa entre os irmãos. Afasta-se para encará-los, sua expressão assumindo aquela seriedade que eles conhecem desde pequenos. — Comecem a falar. — Ordena, suavemente, reconhecendo a hesitação em seus rostos.
— Bem, o senhor será bisavô. — Dominic revela, seus dedos nervosos percorrendo os cabelos, enquanto observa a surpresa iluminar o rosto do avô.
— Nossa ligação é tão forte que até nossos filhos decidiram vir juntos. — Noah acrescenta, com um sorriso travesso, fazendo a surpresa no rosto do avô se transformar em pura alegria.
— Vocês estão tentando testar meu coração? — Questiona, sua voz embargada por uma emoção que parece querer compensar todos os anos perdidos. Sem esperar resposta, envolve os netos em um abraço apertado que carrega décadas de amor contido. — Não acredito, finalmente, bisnetos. — Murmura, enchendo seus rostos de beijos como fazia na infância, arrancando risadas que parecem curar antigas feridas. — Quantos são? — Pergunta, com a ansiedade típica dos Wade, que conhecem bem sua tendência para múltiplos.
— Apenas um, graças a Deus! — Noah exclama, erguendo as mãos aos céus num gesto dramático que faz todos rirem.
— Resolvi manter a tradição dos Wade. — Dominic declara, fazendo o avô bater palmas em antecipação. — Serão dois. — Completa, observando como a alegria transborda no rosto do avô.

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