Florence mantém a postura ereta, ignorando o peso da tensão crescente. Um sorriso quase imperceptível se forma em seus lábios, enquanto ela finge concentrar-se em sua oração. Por dentro, no entanto, sua mente trabalha como uma máquina, tecendo pensamentos frios e calculados.
“Você irá aprender a ficar no seu lugar, minha querida filha.” — Florence pensa, mas não diz, deixando que o silêncio fale por si, enquanto a atmosfera ao redor parece sufocar qualquer tentativa de confronto. — “Será para o teu bem, meu amor.” — Os pensamentos dançam em sua mente, enquanto seus dedos acariciam a cruz do terço. O gesto, aparentemente devoto, é deliberado, carregado de uma calma inquietante. Com movimentos lentos, ela se vira para Elena. Seu olhar é afiado, quase cruel, como se tentasse arrancar a verdade antes mesmo que a sobrinha pudesse respondê-la. — O que mais foi dito? — Pergunta, a voz baixa e gelada, mas tão firme que preenche o silêncio do ambiente.
— O que você está fazendo aqui? — Hugo pergunta, o tom sério acompanhando o franzir do cenho, enquanto entra no ambiente.
Florence muda instantaneamente. Sua postura rígida suaviza-se em segundos, transformando-a em uma figura submissa ao marido. Um sorriso forçado e constrangido se forma em seus lábios, como uma máscara perfeitamente ajustada.
— Elena veio me visitar, querido. — Florence responde, sua voz doce contrastando com a frieza que transparece em seu olhar. Ela caminha em direção a Hugo com passos suaves, a tranquilidade de seus gestos tão ensaiada quanto cada palavra. — Estamos discutindo os detalhes para o casamento. — Acrescenta, lançando um olhar cortante para Elena, uma ordem silenciosa que não precisa ser verbalizada.
— Isso mesmo, titio. Estou tentando decidir quais flores usar na igreja e na recepção. — Elena confirma, a voz obediente, mas com um leve tremor que trai sua tensão. Cada palavra é medida, como se temesse que qualquer deslize desmoronasse a mentira cuidadosamente construída.
Florence repousa a mão no ombro de Hugo com uma leveza quase teatral, o gesto calculado, carregado de uma falsa intimidade. Seus dedos se movem com precisão, massageando os pontos exatos que sabe relaxar o marido, como uma coreografia treinada ao longo dos anos.
— Elena, querida, me acompanhe até o jardim. — Orienta, sua voz firme, mas revestida de uma falsa doçura, sem qualquer traço de hesitação. Em seguida, volta-se para o marido, os olhos suavizando em uma fachada de submissão perfeitamente ensaiada. — Com licença, meu amor. — Pede, num tom baixo e obediente, enquanto deposita um beijo leve em sua bochecha, um gesto tão delicado quanto estratégico.

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