O silêncio que se seguiu às últimas palavras de Liana era pesado, espesso, quase sufocante. O quarto do hospital da alcateia parecia menor, como se as paredes tivessem se aproximado, comprimindo o ar, comprimindo-a entre dois lobos que se odiavam com uma intensidade forte demais para ser explicada em poucas palavras. O cheiro de sangue seco, ervas e antisséptico misturava-se à tensão que vibrava no ambiente, fazendo a pele da ruiva arrepiar inteira.
Dante estava parado perto da porta, o corpo rígido, os ombros tensos demais, as mãos fechadas em punhos tão fortes que os nós dos dedos haviam perdido a cor. Os olhos vermelhos ainda brilhavam, não mais pela transformação iminente, mas por algo muito mais perigoso: raiva pura, crua, misturada com medo.
Um medo que ele se recusava a admitir em voz alta.
Medo de que seu irmão estivesse certo porque se isso acontecesse, a opção mais segura seria tirar Liana dali, mesmo que ele odiasse a ideia.
Liana sentia isso. Sentia na forma como ele a olhava, como se estivesse gravando cada detalhe, como se tivesse que decidir algo irreversível ali, naquele exato momento.
— Você está certa — Dante disse, finalmente, com a voz baixa, controlada à força. Não havia gritos, não havia rosnados e isso, de alguma forma, era ainda mais assustador. — A escolha é sua.
As palavras pairaram no ar como uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo.
Anton, deitado na cama, com o corpo ainda marcado pelos ferimentos recentes, arqueou uma sobrancelha, claramente interessado. Um sorriso torto surgiu em seus lábios machucados, um sorriso que não tinha humor algum, apenas provocação. Adorava ver seu irmão numa situação que ele não podia controlar.
Dante deu um passo à frente, os olhos fixos em Liana.
— Mas se ele tentar tirar você daqui… — continuou, cada palavra pesada, carregada de intenção. — Eu mato esse desgraçado antes que isso aconteça.
Ele não estava mentindo, não estava exagerando.
Era um aviso que Anton entendia bem.
Mas que não temia nem um pouco.
Liana sentiu o estômago revirar, o coração acelerar de forma desconfortável. Abriu a boca para dizer alguma coisa, para falar que aquilo estava indo longe demais, mas Dante não esperou resposta alguma. Virou-se de forma brusca, saindo do quarto em poucas passadas e bateu a porta com tanta força que o impacto ecoou pelo corredor inteiro do hospital.
O som reverberou, deixando um rastro de silêncio atrás de si.
Por alguns segundos, só o que se ouviu foi a respiração irregular de Liana e o leve bip distante de algum equipamento médico em outro quarto.

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