O quarto era pequeno demais para tantos pensamentos.
Liana estava sentada na beira da cama estreita, o corpo inclinado em direção à única janela do lugar. Lá embaixo, o cheiro de pão fresco subia da padaria, era um cheiro de normalidade, de rotina, de vida seguindo em frente.
Ela suspirou pesado.
O céu estava cinza naquela manhã, uma névoa leve pairando sobre a rua estreita. Pessoas iam e vinham, algumas carregando sacolas, outras falando ao celular, todas com destinos definidos.
Diferente dela.
Liana não fazia ideia do que estava fazendo.
Tinha fugido de uma vida que desmoronou, tropeçado em outra que quase a matou e agora estava ali, escondida em um quartinho alugado às pressas, sem planos, sem certezas, sem ninguém.
Levou a mão ao peito sem perceber.
Havia dias que aquela sensação estranha insistia em aparecer. Um aperto que vinha do nada, como se algo puxasse por dentro, chamando por algo que ela não conseguia nomear.
E, contra a própria vontade, pensou nele.
Dante.
O beijo veio à mente sem pedir licença, o jeito como ele a puxara, o calor, a intensidade quase violenta, o momento em que tudo ao redor parecia ter desaparecido. O contraste gritante entre aquele homem que a beijara como se precisasse dela para respirar… e o mesmo homem que a prendeu, que a ameaçou, que deixou o medo se infiltrar em seus ossos.
Liana fechou os olhos e balançou a cabeça com força.
— Não… — murmurou para si mesma. — Não pensa nisso.
As lembranças de Manson vieram logo em seguida. Os olhos dele ficando amarelos, a ameaça clara, direta, o aviso de que ela poderia morrer ali mesmo e ninguém jamais saberia.
E os lobos.
A floresta.
Os olhos brilhando na escuridão.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Ela se levantou de uma vez, como se fugir dos próprios pensamentos fosse possível. Precisava se ocupar, precisava fazer algo que a mantivesse ancorada no agora, no humano, no real. Seus machucados estavam se fechando mais rápido que o comum mas ela sequer reparou nisso, os pontos estavam caindo e os curativos já não se mancharam de sangue as cicatrizes ficariam meio feias talvez mas ao menos não a deixariam esquecer do porque não deveria nunca jamais, reencontrar o homem que agora era dono de seus pensamentos.
“Para de pensar nele”, reclamou consigo mesma. “Ele te prendeu, o amigo dele te ameaçou, você quase morreu! Para de ser idiota mulher!”
— Preciso me ocupar! — falou, nervosa, calçando suas sandálias e decidindo resolver ao menos um problema hoje, o emprego.
Pegou a jaqueta fina e saiu do quarto.
A padaria a recebeu com calor e movimento. O sino da porta tocou suavemente quando Liana entrou, e o cheiro de café fresco misturado ao de pão assando quase a fez chorar de alívio.
— Bom dia! — uma voz animada chamou do balcão.
A atendente era uma moça morena, de sorriso largo e olhos vivos. Tinha os cabelos presos em um coque bagunçado e usava um avental manchado de farinha, alguns cachos escapavam do coque e sua pele negra realçava ainda mais os olhos, que eram verdes quase brilhantes.
— Bom dia — Liana respondeu, meio sem jeito.
— Posso ajudar?
Liana respirou fundo.
— Eu… queria saber se vocês estão precisando de alguém pra trabalhar.
A moça arregalou os olhos por um segundo e então sorriu ainda mais.
— Tá falando sério? Porque se estiver, você acabou de salvar a minha sanidade.
Liana piscou, surpresa.
— Sério?
— Muito sério — a moça estendeu a mão. — Eu sou a Babi. Faço tudo aqui desde atender cliente até impedir o seu Dutran de se matar tentando carregar saco de farinha sozinho.
Liana riu, pela primeira vez em dias.
— Liana.
— Prazer, Liana. — Nani a avaliou rapidamente, o olhar curioso, mas gentil. — Tem experiência?
— Com atendimento, sim. — Ela hesitou. — E… com crianças.
Nani levantou uma sobrancelha.
— Olha só. Multifuncional. Gostei. Entra, vamos conversar.
Elas sentaram-se em uma das mesas enquanto a padaria ainda estava vazia. A conversa fluiu fácil, como se se conhecessem há mais tempo. Babi falava sem parar, reclamava do movimento, do forno que vivia dando problema, das pessoas que pediam café sem açúcar e depois reclamavam do gosto.
— Você vai se dar bem aqui — ela concluiu. — A gente se vira como pode, mas é um bom lugar e o patrão é muito fofo.
O senhor Dutran apareceu logo depois.
Era um velhinho de estatura baixa, cabelos completamente brancos e olhos azuis vivos, escondidos atrás de óculos grossos. Usava suspensórios e um sorriso acolhedor que imediatamente fez Liana se sentir… segura.
— Então você é a moça nova — ele disse, apertando a mão dela com delicadeza. — Seja bem-vinda.
Naquele momento, algo dentro de Liana se acalmou.
Talvez ela pudesse mesmo recomeçar.
***
No dia seguinte, Liana já estava atrás do balcão.
Usava um avental emprestado, o cabelo preso em um rabo de cavalo simples, o rosto ainda marcado por sombras de noites mal dormidas, mas havia algo diferente nela. Um pouco mais presente, um pouco menos quebrada.
Ela e Babi riam enquanto serviam cafés, comentavam clientes estranhos, trocavam piadas bobas.
— Se aparecer um gato hoje, é meu — avisou, apontando para a porta.
— Não sabia que você colecionava gatos — Liana provocou.
— Só os que são altos e gostosões.
O senhor Dutran observava as duas de longe, satisfeito.
— Faz bem ver a padaria cheia de risada — comentou.
Os dias passaram, quatro deles, calmos, quase normais mesmo que Liana ainda acordasse assustada no meio da madrugada com pesadelos.
Liana começou a se acostumar com a rotina, acordar cedo, descer as escadas estreitas, sentir o cheiro de pão quente, ouvir o sino da porta. Pela primeira vez em muito tempo, o medo não era constante. Ainda existia, mas ficava quieto em algum canto.

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