Liana sentiu o ar ficar pesado no mesmo instante em que as palavras de Anton ecoaram no quarto silencioso. Bruxa da profecia. Aquilo soava absurdo, deslocado, quase ofensivo. Ela se levantou e deu um passo para trás instintivamente, o coração acelerado, a cabeça girando com força demais para conseguir organizar qualquer pensamento coerente. Tudo o que viveu desde que chegou a Storm City já era estranho o suficiente, lobos, alcateias, vínculos impossíveis, e agora queriam enfiar nela uma profecia antiga, um destino escrito por deuses que ela nem acreditava existir.
Era demais, muito além do que sua mente conseguia aceitar sem se partir.
— Eu não faço ideia do que você tá falando — Liana disse, a voz saindo mais alta do que pretendia, carregada de incredulidade e irritação. — Não sou bruxa nenhuma, não sou a última de linhagem nenhuma, não sou parte de profecia maluca nenhuma. Isso tudo é… é loucura. Vocês enlouqueceram de vez? Sou orfã, nem tenho pais, como eu poderia ter algum tipo de linhagem maluca?
Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos longos demais, o corpo rígido, os braços cruzados como se estivesse se segurando para não explodir. O olhar dele estava fixo nela, intenso, avaliando cada reação, cada mudança mínima em sua expressão. Havia tensão ali, uma tensão antiga e desconfortável, como se aquela possibilidade tivesse rondado sua mente antes, mas ele nunca tivesse ousado colocá-la em palavras. Quando finalmente falou, a voz veio mais baixa, controlada à força, mas carregada de algo que soava perigosamente próximo do medo.
— Isso explicaria muita coisa — disse devagar. — Inclusive o brilho. Quando você passou mal e desmaiou… sua aura não era normal, Liana. E as visões… Ninguém tem aquelas visões sem motivo, não naquele nível. Eu vi você brilhar, não foi imaginação.
Ela abriu a boca para rebater, mas Anton se adiantou, os olhos atentos, o rosto ainda pálido demais, mas sério como se aquele fosse o assunto mais importante do mundo, mais importante até do que sua recuperação. A presença dele ali, deitado na cama, ainda fraco, não diminuía em nada o peso de suas palavras. Pelo contrário, havia algo no jeito como ele falava que deixava claro que aquilo não era uma hipótese jogada ao acaso.
— Existe uma profecia antiga no mundo dos lobos — Anton começou, a voz rouca, mas firme. — Uma história passada entre alcateias há gerações, muito antes de qualquer um de nós nascer. Ela fala sobre a Bruxa do Norte, a última de sua linhagem, aquela que carrega o poder de coroar o verdadeiro Rei dos Lobos. Quando isso acontecer, todas as alcateias terão que se curvar a ele, queira ou não.
Liana sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto tentava processar aquilo, o coração batendo tão forte que parecia ecoar nos ouvidos. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Dante continuou, a mandíbula tensa, como se cada palavra fosse arrancada a contragosto.
— Esse rei receberá o poder do Alfa Supremo — ele explicou. — Uma linhagem que desapareceu há séculos. O Alfa Supremo não governava apenas uma alcateia, governava todos. Diziam que era escolhido não só pela força, mas pelo equilíbrio entre instinto e razão. Quando essa linhagem caiu, o mundo dos lobos se fragmentou. O poder se espalhou… e o caos também. A deusa da lua traria de volta esse poder para unir novamente seu povo numa monarquia coroada pela sua escolhida do norte.
Anton assentiu lentamente, os olhos voltados para Liana, e naquele olhar havia algo que ela não soube definir de imediato. Não era só interesse, nem só desejo.
Era expectativa.
Espera.
— Foi por isso que eu estava naquela floresta naquela noite — ele admitiu, sem rodeios. — Eu sabia que a Bruxa do Norte estava próxima. Senti o chamado há anos, mas os sinais eram fracos. Quando te vi… eu tive certeza, mas também sabia que seus poderes ainda não tinham despertado completamente. Por isso esperei, te deixei fugir. Achei que eles se manifestariam sozinhos, no tempo certo.
O estômago de Liana se revirou com força, ela deu uma risada curta, sem humor algum, passando a mão pelos cabelos como se aquilo pudesse ancorá-la na realidade.
— Então você se aproximou de mim por isso? — perguntou, a voz embargada apesar do esforço para soar firme. — Porque eu era conveniente pra sua profecia?
Anton suspirou, fechando os olhos por um breve instante antes de encará-la novamente. Quando falou, não havia ironia nem provocação, p que era uma raridade, apenas uma honestidade crua que a pegou desprevenida.
— No começo… sim — ele admitiu. — Eu precisava confirmar, precisava ter certeza. Mas depois… depois eu percebi que você era minha companheira de segunda chance. E isso eu não planejei, acredite ou não.

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