O rosnado de Dante vibrou no ar como uma ordem absoluta, pesada, impossível de ignorar. O lobo negro avançou meio passo, os olhos vermelhos cravados em Liana, o corpo inteiro rígido, pronto para forçá-la a sair dali se fosse preciso. A presença dele era esmagadora, uma muralha de fúria, território e posse. Ainda assim, Liana não se mexeu, o coração batia descompassado, o medo corria quente pelas veias, mas havia algo mais forte a mantendo de pé naquele ponto exato entre dois monstros que se odiavam.
Ela ergueu o queixo, respirou fundo e ficou.
“Sai de perto dele” Dante rosnou novamente, a voz ecoando dentro da cabeça dela como um comando primal. “Agora.”
Liana balançou a cabeça em negativa, sentindo as pernas tremerem, mas não recuarem.
— Não — respondeu, firme, mesmo com a garganta apertada. — Você não vai matá-lo. Não hoje.
Anton, ainda em forma de lobo, respirava com dificuldade sob ela. O corpo dele estava quente, ferido, o pelo manchado de sangue seco e terra. Mesmo assim, ele levantou o focinho devagar e encostou de leve na lateral do corpo de Liana, inspirando fundo, como se aquele simples gesto fosse um lembrete de algo perigoso e impossível de ignorar. A voz dele soou rouca dentro da mente dela, carregada de dor… e de algo quase reverente.
“Bruxinha corajosa…” murmurou. “É uma rosa mostrando seus espinhos, hm?”
O rosnado de Dante explodiu mais alto, mais violento.
“Se afaste dela!” ele ameaçou. “Ou eu arranco a sua cabeça.”
Anton tentou responder, mas o corpo dele falhou. As patas dianteiras cederam de repente, como se a força tivesse sido arrancada de dentro dele à força. Ele cambaleou para frente, o peso todo vindo de uma vez, e caiu no chão com um baque surdo. O lobo ruivo estremeceu uma última vez antes de o corpo começar a mudar, ossos se retraindo, pelo desaparecendo, até restar apenas a forma humana caída na terra úmida.
Liana sentiu o coração se apertar no mesmo instante.
O corpo de Anton estava coberto de ferimentos profundos, arranhões longos e irregulares cruzando o peito, as costas e as pernas. Havia marcas que não pareciam de garras comuns, cortes estranhos, quase queimados, como se algo maior e pior tivesse passado por ali. O rosto dele estava pálido demais, os lábios azulados, a respiração rasa, com certeza havia perdido muito sangue. Sem pensar, Liana se ajoelhou ao lado dele, as mãos tremendo enquanto tocava o peito dele, sentindo o coração ainda bater, fraco, mas presente.
— Dante… — ela chamou, a voz falhando. — Ele vai morrer.
Dante permaneceu imóvel por um segundo longo demais, enorme, ameaçador, os olhos ardendo de ódio e algo mais escuro, mais antigo. Quando falou, a voz veio fria, sem qualquer suavidade.
“Deixa” disse. “O mundo vai ficar melhor com menos um assassino respirando.”
Liana ergueu o rosto devagar, os olhos verdes brilhando de raiva e desespero.
— Se você deixar ele morrer — disse, cada palavra pesada — eu não volto. Não pra essa casa. Não pra você.
O impacto daquilo foi imediato.
Dante deu um passo à frente, o rosnado se transformando em algo quase humano de tão carregado.
“Você tá me chantageando pra salvar ele?” perguntou, incrédulo. “O homem que matou a mãe do meu filho?”
“Eu tô exigindo que você não seja juiz, júri e executor” Liana rebateu, a voz firme apesar das lágrimas queimando nos olhos. “Tem muita coisa errada nessa história, coisas que você não me contou, coisas que você ainda tá escondendo de mim. E eu não vou sair daqui enquanto você fingir que não existe nada além da sua dor.”
O silêncio caiu pesado ao redor deles. Os guardas se entreolharam, inseguros, ninguém ousando se mover. Dante fechou os olhos por um instante, o peito subindo e descendo com força, como se estivesse lutando contra algo dentro de si que queria sangue acima de qualquer razão. Quando abriu os olhos de novo, o vermelho tinha diminuído, mas não desaparecido.
“Você tá do lado errado” ele disse, a voz dura.
— Não é você quem decide o lado que eu tenho que ficar — Liana respondeu, sem recuar. — Não vou mudar de ideia.
Por longos segundos, Dante apenas a encarou. Então, com um rosnado frustrado, ele se afastou meio passo e virou o rosto para os guardas.
“Levem ele” ordenou. “Pro hospital da alcateia. Agora.”
O alívio atingiu Liana como um golpe, quase fazendo suas forças cederem. Ela soltou o ar trêmulo que nem tinha percebido que estava segurando e permaneceu ao lado de Anton enquanto os homens se aproximavam com cuidado, colocando-o numa maca improvisada. Dante não disse mais nada, mas o olhar dele era escuro, carregado de ciúme e raiva contida.
Enquanto atravessavam os corredores da mansão, Sandra observava de longe.
Ela estava parada próxima à escada, os olhos amarelados brilhando de ódio puro ao ver Dante permitir que Anton fosse levado para receber ajuda. Havia perdido não só o homem que amava, mas seu único possível aliado naquela briga toda.
As mãos dela se fecharam em punhos, as unhas cravando a própria pele. Aquilo não deveria estar acontecendo, não daquele jeito, não com aquela humana ajoelhada sobre o corpo do inimigo, sendo protegida por ambos os lados.

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