Hannah Brooks.
O carro desliza pelas ruas frias de Toronto, cortando a noite por um caminho que, claramente, não é o que leva para casa.
Mas eu, em minha infinita sabedoria - ou na mais pura falta dela -, apenas me recosto no banco e deixo que Cael guie o trajeto. Afinal, ele me prometeu uma noite de surpresas.
Se aquela saída triunfal do restaurante não foi a cereja do bolo, eu realmente não faço ideia do que nos espera a seguir.
Viro a cabeça apenas o suficiente para estudá-lo de soslaio.
Ele está tenso. A linha da mandíbula se encontra tão travada que parece esculpida em pedra, os músculos dos braços sob o paletó estão rígidos e seus olhos permanecem fixos na estrada, implacáveis.
Um pensamento quase diabólico cruza a minha mente... Mas, como sou uma jovem de bem, é claro que não vou provocá-lo dentro de um carro em movimento até que ele perca completamente o controle. - Ainda que eu queira muito isso.
Enfim, eu prezo pela minha vida e pretendo chegar inteira ao nosso destino.O que, por outro lado, não me impede de tirá-lo do sério o suficiente para obrigá-lo a encostar.
- Sabe... eu nunca pensei que veria o grande Cael Sterling de joelhos em público. Ainda mais na minha frente, me encarando com tanta devoção - começo, quebrando o silêncio pesado que preenchia o veículo. Deixo minha voz soar mansa, quase aveludada. - Sabe, chefinho, foi uma atuação e tanto... Por um segundo, eu realmente achei que seria pedida em casamento ali mesmo, no meio da calçada, em frente à fachada de um dos restaurantes mais caros do país.
Faço uma pausa dramática, deleitando-me com a visão. A postura rígida e contida dele começa a vacilar; a pressão dos seus dedos contra o couro do volante diminui por um milésimo de segundo..
Ele murmura algo completamente inaudível, recusando-se a desviar os olhos do asfalto à nossa frente.
- Mas o que eu realmente quero entender - continuo, observando o exato momento em que a mandíbula dele volta a travar, o que só aumenta o meu sorriso - é quando, exatamente, eu fui promovida de babá a namorada de mentira. E veja bem, eu tenho algumas dúvidas legítimas quanto a esse novo cargo. Tipo... o meu salário continua o mesmo ou eu vou receber uma insalubridade? Um aumento, quem sabe?
Levo os dedos ao queixo, estreitando os olhos e fingindo uma profunda concentração.
- E quanto às minhas funções? Quero dizer, eu continuo cuidando do Theo durante o dia e, à noite, assumo o posto de sua nova namorada, é isso? - Um riso baixo e genuíno escapa dos meus lábios. - É agora que eu ganho aquele cartão black ilimitado ? Ou esse benefício vem só quando eu for promovida a esposa? Se bem que eu não sei se aceitaria a vaga de cônjuge...
Antes que eu possa terminar a frase, Cael pisa no freio com tanta força que o pneu canta no asfalto. Meu corpo é impulsionado para a frente, e eu só não colido com o painel porque o cinto de segurança trava no peito com um estalo seco.
Ele solta o volante e passa as duas mãos pelos cabelos, puxando os fios de leve, como se estivesse tentando desesperadamente recuperar a sanidade.
Enquanto ele luta por oxigênio, o interior do carro é preenchido pelo som das minhas risadas. Porque sim, se existe um esporte que virou o meu favorito no mundo, é testar os limites do autocontrole do meu chefe. Ou namorado de mentira.
- Você vai acabar me enlouquecendo... - ele dita em um tom baixo, a voz áspera, quase um rosnado contido, enquanto volta a encarar o para-brisa.
- Mas essa é a intenção, chefinho - respondo, limpando uma lágrima imaginária do canto do olho, ainda rindo. - Agora, estaciona esse carro direito no acostamento e vamos conversar seriamente sobre os termos do nosso relacionamento inexistente.
Cael solta mais um de seus resmungos incompreensíveis, mas engata a marcha novamente, guinando o carro para a margem da pista com uma precisão irritada.
Estamos próximos a uma praça pouco movimentada em um dos bairros mais caros e elegantes da cidade, cercada por edifícios imensos, modernos e luxuosos que parecem tocar o céu noturno de Toronto.
Por estar tão deserta a essa hora, a praça se torna o cenário ideal para a conversa que precisamos ter antes de descobrirmos o que mais o restante da noite nos reserva.
A verdade é que, por mais que eu esteja me divertindo genuinamente ao testar os limites da sanidade de Cael, um peso incômodo começa a se instalar no meu estômago. Por trás de toda a minha pose petulante, a realidade b**e à porta: estou apreensiva.
A cena que ele armou na saída do restaurante não vai passar batida, e a repercussão de tudo isso pode tomar proporções que eu mal consigo calcular.
- Terra chamando Hannah. - A voz de Cael ecoa pelo interior do carro, carregada de um leve e raro tom de divertimento.
Viro o rosto e me deparo com seus olhos fixos em mim. Aquelas órbitas azuis e intensas me observam com uma expressão de riso contido, desarmando um pouco da pose de CEO inabalável de segundos atrás.
- Prefere conversar aqui dentro ou quer dar uma volta? - ele pergunta, indicando a praça com um aceno de cabeça.
- Está frio lá fora... Aqui dentro é bem melhor - digo calmamente.
Levo as mãos à fivela e solto o cinto de segurança, ouvindo o clique metálico soar no silêncio do veículo. Eu me ajeito no banco de couro, virando o corpo de lado para encará-lo de frente.
Observando-o assim, de perto e sob a luz fraca do painel, é impossível negar o óbvio: Cael Sterling é um homem bonito. Ridiculamente bonito. Do tipo que atrai olhares magnéticos e paralisa qualquer ambiente por onde passa. Mas, pelos céus... que merda eu estou fazendo da minha vida?
Respiro fundo, deixando a fachada irônica de lado por um instante.
- Qual é a real probabilidade de estarmos em todas as capas de revistas e sites de fofoca do país amanhã de manhã? - pergunto. Minha voz sai baixa, firme, sem qualquer espaço para as brincadeiras de antes.
Cael muda de postura, recostando-se no banco com uma calmaria que quase me irrita.
- Isso não vai afetar a sua vida - ele dita, com a segurança de quem trata o caos como se fosse a coisa mais comum do mundo. - Eu tenho os meus contatos na mídia e posso conter qualquer vazamento antes que...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo