Cael Sterling.
O corte do tecido sobre os meus ombros é impecável, mas o colarinho parece estar a um milímetro de me sufocar. Não por falta de ajuste - alfaiataria sob medida é a minha rotina desde que me entendo por gente -, mas pelo peso invisível da bagagem que me trouxe até esta sala privativa no andar superior da alfaiataria.
A minha frente, David ajeita os punhos do terno cinza-chumbo, encarando o próprio reflexo no espelho de corpo inteiro com a mesma expressão de quem está prestes a entrar na reunião mais decisiva da carreira. A diferença é que nenhum contrato de bilhões exige metade da coragem necessária para encarar o altar.
- Se você continuar encarando o espelho com essa cara de quem vai ser executado, o alfaiate vai achar que a roupa tá torta - comento, ajustando o relógio no meu pulso e quebrando o silêncio do ambiente.
David solta uma risada curta, o ar escapando de uma só vez pelos dentes enquanto se vira para mim. Ele desfaz a postura rígida, passando a mão pelo rosto.
- Não é a roupa, Sterling. É o fato de que em três dias a gente vai estar parado na frente de duas famílias inteiras, prometendo o resto das nossas vidas.
- A gente já prometeu isso no momento em que aquelas duas mulheres aceitaram morar sob o mesmo teto que a gente - rebato, pegando dois copos de cristal da bandeja sobre a mesa de mogno e servindo duas doses de uísque puro. Passo um dos copos para ele. - Você tá com medo do quê? De não ser o bastante?
David pega o copo, observando o líquido dourado balançar contra o cristal antes de me encarar com uma seriedade crua, sem as piadas que ele costuma usar para amortecer o ambiente.
- Às vezes sim. A Mia e as crianças... o Henry, os gêmeos. Olho para a bagunça daquela casa e me pergunto se eu tô realmente pronto para ser o porto seguro que eles precisam.
- Você já é, David - respondo, a voz grave e firme, sem espaço para hesitação. Olho diretamente para o homem que esteve ao meu lado desde quando éramos apenas dois garotos arrogantes achando que o mundo pertencia às nossas empresas. - Você pegou a minha irmã e a vida dela quando tudo parecia desmoronar e construiu um chão sob os pés dela. Você adotou os gêmeos sem piscar um segundo. O Henry te olha como se você tivesse inventado o sol. Se tem alguém nesta sala que provou o que é ser homem de verdade, esse cara é você.
David engole o líquido de uma vez só, assentindo devagar. O olhar dele se suaviza, e ele me encara com o mesmo escrutínio.
- E você, Cael? O homem que jurou que nunca mais colocaria uma aliança no dedo. O que passa na sua cabeça quando você se olha nesse terno?
Fecho os olhos por um segundo curto. Na minha mente, não vejo o terno, nem o espelho da alfaiataria. Vejo a imagem de Hannah há quatro anos: devastada, vulnerável, com os olhos assustados de quem tinha visto a própria vida desmoronar em tempo real, E depois vejo a Hannah de hoje. A mulher que agora faz residencia em medicina, dona de si, a noiva que me encara com uma devoção que me desmonta por inteiro, e a mãe que deu à luz a nossa pequena Luna.


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