Cael Sterling.
Fiquei parado por alguns segundos, observando a silhueta de Hannah se acomodando debaixo das cobertas como se eu fosse apenas uma brisa passageira e irritante no quarto dela.
Minha mente, acostumada a processar dados complexos de fusões bilionárias em frações de segundos, simplesmente travou. Eu tentei, genuinamente, fazer um inventário mental de todos os meus pecados mais graves para entender o que eu havia feito de tão terrível nesta ou em outras vidas para estar pagando daquela forma tão humilhante.
Eu sou Cael Sterling.
Eu dobro governadores, compro empresas concorrentes antes do café da manhã e faço homens adultos tremerem na minha sala de reuniões apenas com um olhar.
Mas ali, diante de uma garota de vinte e poucos anos enrolada em um edredom, eu me sentia o homem mais impotente do país.
Soltei um suspiro pesado, repleto de uma indignação contida. Sem muita cerimônia, tirei o blazer sob medida e o joguei de qualquer jeito em cima de uma poltrona no canto. Em seguida, afrouxei o nó da gravata, puxando-a pelo pescoço e jogando-a na mesma direção.
Olhei para a minha mão direita e, com uma careta de puro asco, soltei o maldito consolo verde-limão no chão. O baque surdo da borracha contra o tapete pareceu pontuar a minha derrota.
Enfiei a mão no bolso da calça social, puxando o celular.
Disquei o número da minha assistente pessoal. Sônia atendeu no segundo toque, com a eficiência cirúrgica de sempre.
- Senhor Sterling? Os acionistas estão a sua espera para a reunião das onze e meia, há algo que o senhor precise ?
- Sônia, cancele tudo - ordenei, mantendo a voz perigosamente baixa e firme, tentando mascarar o fato de que eu estava à beira de um colapso nervoso. - Limpe a minha agenda de hoje. Remarque o comitê de acionistas para amanhã cedo e empurre os outros compromissos para a próxima semana. Não estou disponível para o resto do dia.
Houve uma fração de segundo de silêncio do outro lado da linha. Sônia me conhecia há anos; eu não cancelava tardes inteiras de trabalho a menos que estivesse morrendo ou que o mercado global estivesse colapsando.
- Mas senhor Sterling, a reunião é...
- Não quero saber de mais. Você é paga para fazer o que eu digo, então faça seu trabalho e não questione minhas decisões. - Minha voz ecoa, mantendo o tom firme.
- Entendido, senhor. Mais alguma coisa?
- Sim. Entre em contato com a equipe de manutenção ou ligue para um marceneiro de extrema confiança. Preciso que enviem alguém à mansão imediatamente. Uma das portas internas precisa ser totalmente substituída.
- Houve algum incidente com a segurança, senhor Sterling? - a voz dela subiu um tom, preocupada.
Olhei para a madeira estilhaçada do batente da porta de Hannah, depois para a garota, que sequer tinha se dignado a olhar para trás, rindo de alguma fala daquela maldita série de vampiros.
- Não, Sônia. Apenas um... imprevisto doméstico. Resolva isso o mais rápido possível.
Desliguei sem esperar a resposta. Guardei o celular no bolso e caminhei até a lateral da cama, parando de braços cruzados, projetando minha sombra sobre ela.
- Pronto, senhorita Brooks. A minha tarde multimilionária foi oficialmente jogada no lixo para atender às suas exigências - disparei, a ironia pingando de cada palavra. - O que mais a sua mente brilhante e totalmente desocupada deseja para que eu possa ter a honra de receber a sua permissão para dormir em paz hoje à noite?
Aquela diaba em forma de mulher finalmente pausou a TV.
Ela virou o rosto na minha direção, me encarando com aqueles olhos expressivos e um sorriso que só podia ser descrito como puramente maquiavélico.
Ela não disse uma única palavra de imediato.
Em vez disso, esticou o braço, pegou o próprio celular na mesa de cabeceira e começou a digitar com os polegares em uma velocidade impressionante.
Um segundo depois, o meu celular no bolso vibrou.
Puxei o aparelho novamente e encarei a tela. Era uma mensagem dela. Uma lista. Uma maldita lista interminável, meticulosamente organizada por tópicos.
- Chocolate belga, de preferência meio amargo.
- bombons com recheio de limão siciliano (aqueles azedinhos).
- Um pote de sorvete de chocolate.

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