O meu riso ecoa alto, cortando a tensão que ele próprio havia criado.
Afasto-me o suficiente para garantir uma visão privilegiada do espetáculo: Cael está quase tendo um treco ao perceber que o rumo que a mente dele tomou e o que eu realmente tinha em mente são coisas de universos completamente diferentes.
A cara dele é impagável.
- Maldita garota - ele resmunga, a voz carregada de uma irritação genuína enquanto desconta a frustração no fogão, diminuindo o fogo com um clique brusco. - Você vai me pagar, senhorita Brooks. Pode ter certeza disso.
- Veremos, chefinho.
Dou uma piscadela cínica para ele e me afasto sem pressa. Sigo até uma das cadeiras da bancada, puxo-a com calma e me sento, cruzando as pernas e apoiando o queixo na mão.
Fico ali, apenas observando de camarote enquanto Cael finalmente desvenda o mistério do prato. No fim das contas, a grande obra-prima dele é uma espécie de caldo cremoso, espesso e com um cheiro que, preciso admitir, continua divino.
Com movimentos secos e irritados, ele serve uma porção generosa em um prato fundo.
Cael caminha até mim e simplesmente desliza o prato pela bancada, parando bem à minha frente. Uma enorme, pesada e legítima carranca se formou em sua face. Eu, claro, apenas sorrio de volta, saboreando cada milímetro de toda aquela marra dele.
- Coma - ele praticamente ordena, usando aquele tom autoritário que não surte o menor efeito sobre mim. - Eu vou fazer os ovos e o suco de...
As palavras morrem engasgadas no meio da frase. O comando imponente é abortado no exato milésimo de segundo em que os olhos de Cael finalmente caem sobre a figura de Theo.
Meu pequeno continua em seu próprio mundo, totalmente lambuzado de marrom da testa ao queixo, segurando firme mais uma panqueca com as duas mãos, enquanto uma gota gorda de calda de chocolate escorre em câmera lenta, caindo direto no meio do uniforme da escola.
Que a essa altura, já havia deixado de ser branco a muito tempo.
- Eu avisei - digo com total descaso, dando de ombros e pegando a colher para soprar o caldo, resfriando-o um pouco antes da primeira colherada.
Algo semelhante a um desespero contido passou pelos olhos de Cael. Ele atravessou a cozinha correndo até onde Theo estava sentado, tentando - inutilmente - evitar que o pequeno humano se sujasse ainda mais.
Óbvio que não deu certo.
Como já mencionei, ali estava um magnífico exemplar de uma arte abstrata viva. E enquanto Cael tentava não surtar, correndo até a pia, molhando o pano de prato e voltando com ele encharcado para esfregar o rosto e as mãos do Theo, eu continuei a comer e a situação só piorava.
A calda se espalhava ainda mais pelas bochechas do pequeno artista.
Eu, por outro lado, continuo a tomar meu caldo calmamente.
Afinal de contas, uma coisa não tinha absolutamente nada a ver com a outra, e o espetáculo estava divertido demais para ser interrompido.
- Você não vai mandá-lo para a escola desse jeito - digo pacientemente, entre uma colherada e outra, apreciando o caos. - Ele precisa de outro banho e roupas limpas, no mínimo.
- Vamos nos atrasar se eu tiver de fazer tudo isso novamente! - ele diz, e eu percebo pelo tom de voz que está tentando controlar a raiva e a frustração que devem estar borbulhando por dentro.
- Não é uma opção - respondo com toda a calma do mundo, levando mais uma colherada à boca.
- Merda, Hannah - ele resmunga, batendo em retirada para a pia com o pano que, agora, também estava completamente manchado. - Por que diabos não me avisou antes?
- Eu tentei... duas vezes, até. Mas você simplesmente não me deu ouvidos. - Dou de ombros, fingindo desinteresse. - Isso é o básico que você deveria saber, chefinho. Levando em consideração que você é pai desde antes de eu me tornar babá.
- Eu não tenho paciência para as suas gracinhas agora, garota. Eu preciso...


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