Hannah Brooks
Sou bruscamente arrancada das profundezas de um sono sem sonhos pelo impacto repentino de um peso considerável caindo direto sobre o meu estômago. Um gemido sufocado morre na minha garganta quando sinto mãos quentes, gordinhas e minúsculas me empurrarem contra o colchão.
Há uma avidez quase desesperada naqueles toques, uma urgência que me deixa completamente desconcertada e sem eira nem beira antes mesmo que eu consiga formular o primeiro raciocínio lógico do dia.
Abro os olhos devagar, sentindo as pálpebras pesadas como chumbo. Eu pisco uma, duas, três vezes, lutando bravamente contra a claridade insolente que invade o quarto através das frestas da cortina - um sinal claro, cruel e inequívoco de que o sol já havia nascido há um bom tempo.
Enquanto isso, a criaturinha continua sua missão de me chacoalhar de um lado para o outro na cama, como se eu fosse um boneco de pano precisando urgentemente de reanimação cardíaca.
Finalmente, a minha alma termina o d******d lento e doloroso, reintegrando-se ao meu corpo.
Quando finalmente consigo virar o rosto para o lado, dou de cara com um par de olhos azuis absurdamente brilhantes e um mar de cachos dourados que parecem ter vida própria, pulando freneticamente bem em cima do meu lençol enquanto grita o meu nome.
A primeira coisa que passa pela minha mente - o primeiro comando cerebral em meio ao caos do susto - é um letreiro luminoso em neon piscando em letras garrafais:
"Deu merda. Deu muita merda. A porta ficou encostada, o Theo invadiu o quarto, ele me pegou no flagra na cama com o pai dele. Porra, eu estou fodida, destruída, desempregada e com a reputação no subsolo..."
Mais uns mil pensamentos catastróficos e teorias de como implorar por asilo político em outro país começam a se atropelar na minha cabeça, mas a vozinha estridente e perfeitamente animada dele ecoa no silêncio do quarto, estourando a bolha do meu transe paranoico.
- Acorda, Nana... Acorda, acorda, acorda! - ele dispara, cada palavra pontuada por um salto na cama. É uma animação contagiante, quase ofensiva para quem acabou de despertar. - Acorda, Nana, acordaaaa! O papai fez panqueca, Nana! Vem, Nana, vem comer com o Theo...
Antes que eu consiga formular uma frase, ou emitir um som que não pareça o de um zumbi moribundo, ele escorrega e desce da cama tal como um furacão mirim na categoria cinco. Um estalo de culpa me atinge: será que eu dei doce demais para ele na noite passada e o açúcar só fez efeito agora?
Nem tenho tempo de raciocinar.
Em um movimento rápido de pura pura energia infantil, ele agarra a ponta do edredom e arrasta o lençol da minha cama direto para o chão de uma vez só. Céus, eu nunca, em toda a minha vida inteira, agradeci tanto a Deus por ter ido dormir vestida.
- Vamos, Nana... vamos! Vamos, vamos! O Theo quer panquecas!
Me sento devagar, apoiando as mãos no colchão enquanto encaro o minihumano que parece ter energia estocada o suficiente para alimentar uma usina nuclear inteira sozinha. Minha mente tenta processar a cena, se perguntando: o que diabos está acontecendo aqui?
Theo continua correndo e dando piruetas pelo quarto, uma alegria tão genuína e palpável que quase dá para tocar no ar. Finalmente me recomponho o suficiente e permito que meus olhos varram o ambiente, procurando o rastro do desastre.
Não há o menor sinal de Cael Sterling ali dentro. Nada. Exceto, é claro, pelo cheiro sutil, amadeirado e absurdamente inconfundível de sua colônia, que havia impregnado os meus lençóis e agora parecia zombar da minha sanidade.
Volto minha atenção para o Theo e só então o detalhe principal me atinge em cheio: ele já está totalmente vestido. Uniforme impecável, arrumado e pronto para ir à escola. Pisco algumas vezes, incrédula, e desvio o olhar em direção ao relógio digital no criado-mudo ao lado da cama.
O número que brilha na tela quase me faz ter um surto psicótico em tempo real.

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