Cael Sterling.
Ao passar pela mesa, meus olhos bateram na pilha de documentos que eu deveria assinar até meia-noite. Em um acesso de fúria cega, passei o braço com força pela superfície de mogno, jogando pastas, relatórios e canetas direto no chão. O som dos papéis se espalhando pela sala foi o único aviso de que o Cael Sterling controlado e frio havia deixado o prédio.
Cruzei a porta dupla do meu escritório como um predador encurralado. Os corredores do andar da diretoria já estavam na penumbra, mas a minha secretária executiva ainda revisava algo na mesa dela.
Ao me ver passar como um furacão, ela se sobressaltou, ajeitando os óculos, assustada com a energia caótica que eu emanava.
- Senhor Sterling? O a reunião com a filial em New York é em alguns minutoa e os contratos da... - Ela começou, a voz trêmula cortando o silêncio.
- Cancele tudo. - Rosnei, sequer diminuindo o passo a caminho do elevador privativo. - Não estou para ninguém pelas próximas vinte e quatro horas. Se alguém me ligar, diga que eu morri.
- Mas senhor, a fusão...
A porta de metal do elevador se fechou antes que ela pudesse terminar, engolindo a voz dela e me deixando sozinho com o meu próprio inferno. O espelho do elevador devolvia a imagem de um homem que eu mal reconhecia: cabelo desalinhado, os primeiros botões da camisa social abertos, as pupilas dilatadas de puro ódio.
Eu ia para casa. E se aquela diaba estivesse cruzando a porta daquela mansão, eu a trancaria naquele quarto nem que fosse a última coisa que eu fizesse na porra da minha vida.
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O elevador privativo não abriu rápido o suficiente. As portas de metal pareceram levar uma eternidade para se arrastarem no subsolo do prédio, e o som dos meus sapatos ecoando pelo concreto do estacionamento era o único ritmo que minha mente caótica conseguia processar.
Eu joguei o paletó no banco do passageiro da Mercedes e ligo o motor. O ronco potente costuma me acalmar em dias comuns, mas hoje ele só serve de trilha sonora para a irritação que cresce dentro de mim.
Volto o olhar para o relogio no painel.
17h50
Inferno.
Eu conheço Toronto o suficiente para saber que cruzar a cidade a essa hora é como cometer um suicídio logístico, mas a fúria me cega.
Manobrei com brutalidade, os pneus cantando no piso polido do estacionamento, e embiquei em direção à saída, direto para a Gardiner Expressway.
O impacto com a realidade veio em menos de dois minutos.
Assim que as rodas tocaram a avenida, fui obrigado a parar. Literalmente aparei.
Um mar de luzes vermelhas de freio se estendia até onde a vista alcançava, uma massa compacta de metal, fumaça e trabalhadores exaustos que pareciam se arrastar na velocidade de um rastejo fúnebre.
A velocidade média no centro não passava dos 15 km/h, e cada segundo preso atrás de um maldito táxi ou de um bonde da TTC que bloqueava o cruzamento fazia meu estômago revirar.
- Anda, porra! - esmurrei o volante, a buzina ecoando estridente dentro do SUV isolado acusticamente.
Ninguém andou. O trânsito de Toronto às cinco da tarde não se importa com quem eu sou, com quantos milhões eu tenho na conta ou com a urgência da minha possessividade. Para a Gardiner, eu era apenas mais um idiota preso no gargalo.
O ar-condicionado estava no máximo, mas o suor frio descia pela minha nuca. Abri mais um botão da camisa, sentindo o tecido sufocar meu pescoço.
Olhei pelo vidro lateral: os pedestres caminhavam mais rápido na calçada do que o meu carro de mais de cem mil dólares. Um bando de engravatados com copos de café na mão, alheios ao fato de que, a poucos quilômetros dali, uma garota de vinte e poucos anos estava prestes a arruinar a minha vida.
Minha mente projetava a foto daquela calcinha preta contra o para-brisa. O contraste da renda na pele pálida dela parecia gravado a ferro quente nas minhas retinas.

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