Cael Sterling.
Eu passei dos limites.
A constatação não vem como um pensamento qualquer — ela se impõe, pesada, incômoda, impossível de ignorar. Lateja na minha mente como um erro que ainda está fresco demais para ser ignorado ou racionalizado.
Eu me descontrolei.
Avancei como uma maldita besta enjaulada que finalmente encontrou uma fresta na própria jaula. Não houve cálculo, não houve estratégia. Só impulso. Desejo bruto, cru, daqueles que não pedem permissão — só tomam. Me deixei levar por aquilo sem oferecer resistência, sem tentar frear, como se, no fundo, eu estivesse esperando por uma desculpa para perder o controle.
E eu perdi.
Me entreguei ao momento como se nada mais importasse, como se o mundo inteiro pudesse esperar do lado de fora enquanto eu afundava naquela necessidade urgente, quase violenta. Eu a quis... e, naquele instante, tomei o que queria.
E agora estou aqui.
Com a culpa se instalando devagar, ocupando cada espaço que antes estava preenchido por calor e urgência.
Eu sei que não fui o único.
Isso talvez seja a parte mais traiçoeira de tudo. Ela também queria. O corpo dela respondeu ao meu como se já soubesse o caminho, como se não houvesse dúvida, hesitação ou arrependimento naquele momento. Cada reação, cada som, cada resposta... só alimentava ainda mais o que eu já não estava conseguindo conter.
E ainda assim — mesmo sabendo disso — eu deveria ter parado.
Eu deveria ter sido o responsável.
O controle.
Mas não fui.
Porque o cheiro dela... aquela mistura maldita de rosas com perfume caro... ainda parece grudada em mim, como se tivesse se infiltrado na minha pele. Foi o suficiente para desmontar qualquer resquício de lógica que eu ainda tivesse.
Merda.
Eu estraguei tudo.
E o pior de tudo é que não existe desculpa fácil dessa vez. Não tem álcool para culpar, não tem distração, não tem erro externo. Eu estava sóbrio. Perfeitamente consciente de cada decisão que tomei... e, pelo que eu sei, ela também estava.
E isso torna tudo ainda mais perigoso.
Mais real.
Mais difícil de ignorar.
Permaneço parado em frente à porta dela como um completo idiota, encarando a madeira como se, de alguma forma, ela fosse me dar uma resposta. Já bati. Já chamei pelo nome dela mais vezes do que estou disposto a admitir.
Nada.
Nem um som.
Nem um movimento.
Ela não vai abrir.
E, honestamente... talvez esteja certa.
Solto o ar devagar, passando a mão pelo rosto em um gesto cansado, frustrado. Há um peso estranho no peito, algo entre irritação e... algo que eu prefiro não nomear agora.
Por fim, dou um passo para trás.
Então outro.
Isso não pode acontecer de novo.
Não vai acontecer.
Se for preciso, eu enterro essa noite tão fundo que nem eu mesmo vou conseguir alcançá-la. Finjo que nunca existiu. Que nunca aconteceu. Que ela é só mais uma funcionária... e nada além disso.
É o mais seguro.
É o mais sensato.
É o único caminho possível.
Me afasto de vez, seguindo pelo corredor com passos firmes demais para alguém que claramente não está no controle de nada. Quando entro no meu quarto, bato a porta com força, o som ecoando como um reflexo direto da frustração que cresce dentro de mim.
Passo as mãos pelos cabelos, puxando-os para trás, tentando organizar alguma coisa — pensamentos, decisões, qualquer coisa que faça sentido.
Não funciona.
Eu preciso esfriar a cabeça.
Literalmente.
Caminho direto para o banheiro, já abrindo o chuveiro sem pensar duas vezes. Água gelada. O mais gelada possível. Talvez seja a única coisa capaz de silenciar o caos que ainda corre sob a minha pele.

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