Hannah Brooks
O toque do meu celular corta o turbilhão de pensamentos como uma lâmina fina, precisa, me arrancando à força do labirinto em que minha mente se enfiou. Por um segundo, fico parada, imóvel, como se qualquer movimento pudesse fazer tudo aquilo voltar com ainda mais intensidade.
Nada do que aconteceu deveria ter acontecido.
A frase surge clara, quase cruel, ecoando dentro de mim com uma convicção que tenta se impor — mesmo que não consiga apagar o resto. Porque não... não foi ruim. Longe disso. Céus, foi intenso, avassalador, perigosamente satisfatório em níveis que eu nem quero analisar agora. Negar isso seria uma mentira descarada. Mas admitir também não ajuda em nada.
Porque junto com tudo aquilo, veio a consciência pesada, incômoda, inevitável.
Nós cruzamos uma linha.
Uma linha que não deveria nem ter sido tocada, quanto mais atravessada daquele jeito.
E agora... agora eu não faço ideia de como vou encarar o homem que está do outro lado da porta.
Meu chefe.
A palavra pesa mais do que deveria.
Na próxima vez que nossos olhares se encontrarem — porque eles vão se encontrar, inevitavelmente — eu não sei qual versão de mim vai aparecer. A profissional impecável... ou a mulher que ainda sente o toque dele queimando na pele.
Talvez a solução mais sensata seja simples: transformar meu quarto numa espécie de prisão voluntária. Ficar aqui, trancada, invisível, até segunda-feira. Até Mia voltar com Theo. Até que a rotina engula esse momento inteiro e me permita fingir — com perfeição — que nada aconteceu.
Porque fingir... isso eu sei fazer muito bem.
Respiro fundo, levando as mãos aos cabelos, puxando levemente os fios como se isso pudesse organizar meus pensamentos. Não organiza.
— Merda... — murmuro baixo, mais para mim mesma do que qualquer outra coisa.
A ideia inicial era só provocar. Um jogo controlado, calculado, seguro. Algo que eu pudesse parar quando quisesse.
Mas eu não parei.
E ele também não.
O celular vibra novamente, dessa vez acompanhado do som característico de mensagem. Fecho os olhos por um instante, já imaginando quem seja, antes mesmo de pegar o aparelho. Quando finalmente olho a tela, o nome de Jane brilhando ali só confirma o inevitável.
Meus olhos se arregalam no mesmo segundo.
Ótimo.
Simplesmente ótimo.
Se existia alguma chance de essa noite ficar restrita a mim... ela acabou de ir embora.
Abro as mensagens, sentindo um calor subir pelo rosto conforme leio cada linha.
》Mensagens on 《
JANE - Hannah do céu, você esqueceu de desligar o celular. 👀👀
JANE - Amiga, pelos deuses, o que foi aquilo que eu ouvi? Eu desliguei pra te dar privacidade, né... deu pra perceber que você tava precisando. 😅😅🫠
JANE - Se já tiver terminado, me responde. Tá tudo bem??
JANE - Vou interpretar o silêncio como um sim.
JANE - Deve estar ocupada... vou te deixar aproveitar a noite, sua safada. Mas amanhã quero todos os detalhes na minha mesa. Se cuida, e caso precise de algo me liga. Beijos 💕

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