Hannah Brooks
— Ele já deveria estar de pé. — a voz de Cael ecoa pela cozinha com aquela irritação controlada que ele usa como se fosse uma segunda pele. Os olhos dele me atravessam como se eu fosse a única responsável por algum colapso iminente do universo. — Do que adiantou eu ter lhe passado aquele maldito planner com toda a agenda do meu filho, se você se recusa a seguir?
— Eu me recuso a seguir porque é coisa de louco. — rebato de imediato, cruzando os braços e sustentando o olhar dele sem piscar. — Não existe motivo nenhum para ele estar de pé às cinco e meia da manhã quando só entra na escola às oito. Isso não faz sentido.
— Isso se chama disciplina, senhorita Brooks. — ele responde naquele tom formal, frio, como se estivesse lendo um manual de criação infantil escrito por robôs. — Algo que você mesma deveria reconhecer.
Eu solto um riso curto, sem humor nenhum.
— Não. Isso se chama tortura. E é 8 completamente diferente. — minha voz sobe um pouco, firme, sem hesitação. — Está fazendo oito graus lá fora, nem eu queria estar de pé a essa hora. Quem dirá uma criança de três anos?
O maxilar dele trava. Eu vejo.
Vejo aquele micro segundo em que a paciência dele ameaça romper.
— Se você não for acordá-lo, eu mesmo irei. — ele diz, já virando o corpo na direção das escadas, como se aquilo encerrasse a discussão.
— Você é maluco. — me coloco na frente dele sem pensar duas vezes, bloqueando o caminho. — Seu filho passou boa parte da noite com febre e agora que finalmente conseguiu descansar você quer acordá-lo? Não vai não.
— Theodore precisa de disciplina.
— Ele só tem três anos, seu neandertal. — as palavras saem antes mesmo de eu decidir se deveriam sair. — Ele é uma criança, não um soldado esperando ordem ao amanhecer… e você é maluco.
O silêncio que segue é pesado.
Quase ofensivo.
Cael me encara.
E então aquele maldito sorriso convencido aparece de novo no canto dos lábios dele — o tipo de expressão que me faz ter certeza absoluta de que ele não está levando nada disso como deveria. Há desafio ali. E teimosia. E alguma coisa ainda pior: convicção.
— Insolente. — ele diz, firme, antes de simplesmente passar por mim e seguir em direção às escadas.
Eu fico parada por um segundo, encarando o vazio que ele deixou.
Puta merda.
Eu não me inscrevi pra isso.
Quando esse neandertal me perseguiu e me ofereceu a vaga de babá, eu juro que em nenhum momento passou pela minha cabeça que meu maior desafio seria sobreviver à personalidade dele.
Céus.
O Theo é um anjo comparado ao brutamontes que ele chama de pai.
Quatro dias.
Só quatro dias aqui dentro e eu já descobri que Cael Sterling é, sem sombra de dúvida… insuportável.
E não é um “insuportável simpático”. Não é um “difícil, mas com coração escondido em algum lugar”. Não. É insuportável em todos os aspectos possíveis, imagináveis e provavelmente ainda não catalogados pela ciência.
O homem tem quase quarenta anos e o temperamento de um adolescente mimado que acredita que o mundo inteiro gira em torno dele só porque o cartão de crédito nunca foi recusado.
Reviro os olhos e volto para a cozinha.
Respiro fundo.
Eu tenho meu próprio ritmo. Sempre tive. Acordo cedo mesmo quando não preciso, meu corpo simplesmente desperta como se tivesse compromisso com o mundo. Café primeiro. Sempre. Depois tudo o resto começa a fazer sentido.
E, agora, com o Theo, isso virou rotina oficial. Estranhamente… funcional.
A manhã aqui segue um padrão simples.
Eu acordo primeiro. Faço meu café. Deixo o dele pronto. Volto para o quarto, me arrumo com calma, banho, roupas, cabelo… organizo tudo o que precisa ser organizado.
Depois vou acordar o Theo e preparar ele para a escola.
Simples. Estruturado. Funciona.
Funcionava.
Até o senhor “disciplina militar infantil” resolver interferir.
Eu ontem eu precisei ligar para a tia do Theo — a tia — porque o próprio pai não sabia que remédio o garoto podia tomar.
E ainda quer me dar lição de moral sobre criação?
Sinceramente…
Eu encaro a bancada por um segundo, respirando pelo nariz.

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