Cael Sterling
Mas porque, de repente, sinto uma fatia daquela… coisa sendo empurrada diretamente contra a minha boca, sem aviso, sem preparo, sem absolutamente nenhuma chance de reação.
Meus olhos se arregalam no mesmo instante, o corpo inteiro travando por um segundo, enquanto viro o rosto para encarar o responsável pelo atentado.
Theo.
De pé em cima da cadeira, completamente sujo, completamente concentrado… e com um sorriso torto, quase travesso, estampado no rosto. Um sorriso que mistura orgulho e expectativa, como se ele estivesse prestes a provar algo muito importante.
— Papai é super-herói… — a voz dele ecoa animada, vibrante demais para alguém que claramente acabou de cometer um pequeno crime contra mim. — Come, papai, come, papai… a Naná disse que super-heróis precisam comer…
Claro que disse.
Sem saída — e, principalmente, sem coragem de ser o responsável por apagar aquele sorriso do rosto dele — eu cedo. Contra a minha própria vontade, contra todo o bom senso… eu cedo.
Dou uma mordida naquela bomba calórica que meu filho praticamente força contra mim, sentindo o gosto forte invadir minha boca enquanto mastigo com uma resignação silenciosa.
E, enquanto faço isso… meus olhos se erguem.
Direto para ela.
Hannah Brooks.
A figura insolente à minha frente me encara de volta sem o menor traço de arrependimento. Pelo contrário. Os olhos verdes sustentam os meus com uma firmeza irritante, e há um sorriso nos lábios dela — um sorriso pequeno, contido… mas carregado de desafio.
Como se ela soubesse exatamente o que fez.
Como se tivesse acabado de ganhar uma disputa que eu nem percebi que estava acontecendo.
— Viu, anjinho… eu disse que o papai era um super-herói… — ela murmura, inclinando-se levemente na direção do Theo, como se compartilhasse um segredo precioso. — Super-heróis comem pizza.
Perfeito.
Simplesmente perfeito.
Moral da história: eu, que só queria chegar em casa, tomar um banho quente e esquecer que o dia existiu… agora estou preso aqui. Sentado à mesa da cozinha, sendo coagido — emocionalmente, diga-se de passagem — a comer pizza porque, aparentemente, fui promovido a super-herói.
E super-heróis… comem pizza.
Engulo mais um pedaço, ainda sentindo o olhar dela sobre mim, e respiro fundo pelo nariz, tentando manter o mínimo de controle.
Mas, por dentro…
Eu juro pelos céus.
Eu vou esganar essa garota.
》☆☆☆☆☆《
Saio do banheiro secando os cabelos com a toalha após o banho quente tão esperado. A água ainda parece morar na minha pele, e, por alguns minutos, meus músculos finalmente cedem, relaxando como se também estivessem exaustos de sustentar tudo o que eu carrego durante o dia. Existe um breve, quase ilusório, momento em que penso que poderia simplesmente me jogar na cama… e dormir. Dormir de verdade. A noite inteira. Sem interrupções.
Mas é claro que isso seria um eufemismo.
Porque, no instante exato em que minha cabeça toca o travesseiro, o sono desaparece como se nunca tivesse existido. A cama deixa de ser descanso e se transforma naquela velha conhecida — uma maldita sala de tortura. E eu me vejo, mais uma vez, revirando de um lado para o outro, encarando o teto no escuro, contando segundos que parecem horas… sem conseguir sequer fechar os olhos de verdade.
É sempre assim.
Essa maldita insônia começou há alguns anos e, desde então, dormir deixou de ser algo natural e passou a ser uma negociação. Um acordo forçado mediado por comprimidos. Eu preciso me dopar com remédios para, no mínimo, conseguir algumas horas de descanso — o suficiente para não perder completamente o controle e sair demitindo metade da empresa no dia seguinte.
Visto algo confortável, sem pressa, como se prolongar cada pequeno gesto pudesse adiar o inevitável. Meus olhos se voltam para o relógio sobre o móvel ao lado da cama.
22h48.
Passei mais tempo do que pretendia no banho… mas, sem dúvida, foi necessário. Foi o único momento do dia em que o peso nos meus ombros pareceu diminuir, ainda que só por algumas horas.
Saio do quarto, e o silêncio da casa me atinge quase imediatamente.
É um silêncio denso.
As noites aqui sempre foram assim — silenciosas demais, organizadas demais… quase opressivas. Como se a própria casa estivesse em constante vigilância.
Caminho até o quarto do Theo. A porta está entreaberta, permitindo que a luz baixa do abajur escape para o corredor. Empurro levemente, o suficiente para vê-lo.
Ele está dormindo.
Sereno.


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