Cael Sterling.
Não bastasse ser solenemente ignorado pelo meu próprio filho - trocado sem cerimônia pela sua adorada "Nana" - ainda preciso suportar a ladainha de David zumbindo no meu ouvido como uma mosca irritante que se recusa a morrer.
O desgraçado não faz questão nenhuma de disfarçar o prazer que está sentindo com a situação. Pelo contrário, ele se deleita nela, como se fosse um espetáculo particular montado exclusivamente para o seu entretenimento.
E eu... bem, eu estou a um passo perigosamente real de atravessar a mesa, agarrá-lo pelo colarinho e testar a resistência do vidro da janela do meu escritório no vigésimo quinto andar.
- Você deveria ter visto a sua cara, irmão. - a voz de David ecoa, carregada de uma provocação descarada, quase infantil. - Seu filho simplesmente ignorando totalmente a sua presença pra focar na nova babá. É isso que dá ser um pai ausente.
A palavra paira no ar mais tempo do que deveria. Ausente. Como se fosse simples assim. Como se ele tivesse o direito de resumir tudo em uma única palavra.
- Ele está animado com a novidade, apenas isso. - respondo, mantendo a voz controlada por puro esforço, enquanto acendo um charuto. O clique do isqueiro soa mais alto do que o normal, como um aviso silencioso.
Levo o charuto aos lábios, puxo a fumaça devagar, deixando que ela preencha meus pulmões antes de soltá-la em uma exalação lenta, calculada.
- Logo essa empolgação passa. E ele volta a ser o mesmo de sempre.
É uma resposta prática. Racional. Conveniente.
Também é uma mentira confortável.
- Essa eu pago pra ver. - David praticamente ri, a gargalhada contida escapando nas bordas da voz. - Admita, meu amigo... você perdeu seu espaço pra uma garota que seu filho acabou de conhecer. E tá se remoendo por dentro por isso.
A provocação acerta mais fundo do que eu gostaria de admitir. Porque não é completamente infundada. Porque há um incômodo ali, pequeno e irritante, que insiste em crescer no fundo do peito.
- Dá pra calar a boca por um momento? - minha voz sai mais firme, mais cortante do que o planejado. - Eu não estou me remoendo, David. Eu queria uma babá pro meu filho. Eu consegui a porra de uma babá. O que mais eu poderia pedir agora?
Ele não responde de imediato, o que já é suspeito por si só. David nunca perde uma deixa.
- Uma esposa, talvez. - ele diz, finalmente, com aquele sarcasmo quase elegante que me faz querer socá-lo.
Não me contenho. Pego uma das canetas no suporte sobre a mesa e a lanço na direção dele sem pensar duas vezes. O movimento é rápido, impulsivo, e completamente inútil. Ele desvia com facilidade irritante, como se já esperasse por aquilo. Como se me conhecesse bem demais.
E então ele ri. Mais alto dessa vez. Muito mais alto.
- Você acredita que eu gostei dela, caro amigo...Muito gente boa. - ele continua, como se nada tivesse acontecido, inclinando-se para pegar um dos charutos da caixa sobre minha mesa com uma naturalidade quase ofensiva. Acende com calma, como se estivesse em casa.
Observo em silêncio, estreitando os olhos, já sabendo que ele não terminou.
David nunca termina na primeira frase.
- E ela me contou algo interessante sobre a contratação repentina... - ele solta a fumaça devagar, me analisando por entre ela, como se estivesse montando um quebra-cabeça. - Ainda mais considerando que não foi ela quem se ofereceu pra vaga... mas você que praticamente a perseguiu.
Ele faz uma pausa calculada, o suficiente para que o peso das palavras assente.
- Curioso, não acha?
As palavras dele me atingem em cheio, tão inesperadas quanto um soco mal calculado. O conhaque desce pelo caminho errado, e eu engasgo, a tosse vindo forte, quase desesperada, queimando minha garganta enquanto tento recuperar o ar. Do outro lado da mesa, David não perde um segundo sequer - ele me observa com aquele maldito sorriso de escárnio, como se estivesse assistindo a uma cena particularmente divertida.
- Eu nunca pensei que veria o grande Cael Sterling perseguindo uma mulher... - a voz dele surge mais baixa agora, carregada de uma provocação ainda mais afiada, quase íntima, como se estivesse cutucando exatamente onde dói. - Mas é claro que você tem seus motivos. Afinal de contas, você precisava de uma babá... e ela se encaixava em todas as suas exigências. Mesmo sem nunca ter feito uma entrevista, certo?
A forma como ele constrói a frase me irrita mais do que a acusação em si. Há intenção ali. Há análise demais.
- O Theo gosta dela... foi a melhor referência que eu pude ter. - respondo, firme, sustentando o olhar nele enquanto estreito os olhos, tentando entender onde diabos ele quer chegar com isso. Porque David nunca fala por falar. Sempre há um objetivo por trás.
- Claro que sim, irmão. - ele solta uma risada leve, como se eu tivesse acabado de contar uma piada particularmente boa. - E vamos fingir que você não reparou nem um pouco no quão atraente ela é...
- Sai da minha sala, David.
Minha voz corta o ar mais alta do que deveria, mais ríspida do que eu planejava. O silêncio que se segue dura menos de um segundo, mas é o suficiente para que eu perceba: erro. Um deslize. E ele vê.
Claro que ele vê.
O sorriso de David se alarga, satisfeito, como se tivesse acabado de confirmar uma teoria antiga.
- Você não precisa ficar na defensiva, irmão... - ele continua, com uma calma irritante. - A garota é realmente bonita...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo