Cael Sterling
Eu queria garantir que ela estivesse bem, mas no processo, eu tinha acabado de me tornar exatamente o tipo de homem de quem ela estava tentando fugir.
— Perdoe-me... eu... — As palavras morreram na minha garganta, sufocadas por uma onda de vergonha que eu não sabia como processar. Eu, Cael Sterling, gaguejando. — Perdoe-me, senhorita Brooks. Não foi meu intuito machucá-la. Eu apenas... céus, você estava tremendo, passou o dia inteiro sem comer e eu...
— E você achou de bom tom me arrastar pela escola, na presença de outros pais, como se eu fosse um bicho de estimação ou um objeto de sua propriedade? — A voz dela cortou o ar, vibrando com uma indignação legítima. Eu não tinha defesa. Não havia argumento lógico que justificasse o que eu fiz. — Eu aceitei esse emprego porque preciso dele, senhor Sterling, mas entenda uma coisa: há linhas que não devem ser cruzadas. Jamais.
Ela deu um passo à frente. A postura, antes fragilizada pelo tremor da fome, agora era rígida como aço. Era a presença de alguém que não estava ali para negociar sua dignidade, mas para ditar os termos da própria sobrevivência.
— Uma dessas linhas é que você nunca mais, sob hipótese alguma, vai encostar em mim sem minha permissão. Ou eu juro pelos céus que o que eu fiz com Ryan e Amelie vai parecer uma carícia perto do que farei com você — ela disse com uma calma tão gélida que senti meus pelos do braço se arrepiarem.
— Você seria presa... — comecei, mas a frase soou fraca até para os meus próprios ouvidos.
— Por me defender de um chefe que tentou me agredir fisicamente no meio de uma escola primária? — O semblante dela mudou de repente. Os olhos se encheram de lágrimas, os lábios tremeram e, por um segundo, ela pareceu a criatura mais vulnerável do mundo, prestes a desabar em prantos.
Eu quase dei um passo para ampará-la, mas então... nada. O choro evaporou. A face dela voltou ao normal, fria e calculista, em uma transição tão rápida que me deixou atordoado.
— Sinceramente, senhor Sterling, em quem você acha que a mídia e o júri acreditariam? Na jovem babá dedicada, estudante exemplar de medicina que só queria cuidar de uma criança, ou no magnata com histórico de tratar as pessoas como posse e que perdeu o controle em público?
— Você não ouse... — O rosnado subiu pela minha garganta, mas o aviso foi inútil.
— Isso mesmo. Sabemos muito bem em quem acreditariam — ela sorriu. Não era um sorriso doce, era um sorriso largo, satisfeito, de quem acabou de encontrar o ponto fraco na armadura do adversário. — Agora vamos... eu vi um bolo de chocolate na vitrine da cantina lá embaixo que está clamando pelo meu nome.
— Você não vai comer aquilo — protestei, tentando retomar algum senso de ordem. — Não é saudável, é puro açúcar e você precisa de sustância, não de...
Ela se aproximou. Um passo, depois outro, até que o espaço entre nós desaparecesse. A diferença de altura era nítida — eu precisava baixar o olhar para encará-la —, mas isso não tirava um grama da autoridade que ela emanava. O perfume dela, uma mistura de baunilha e algo cítrico, invadiu meus sentidos, tornando difícil manter o raciocínio lógico.
— Eu vou comer, vou levar um pedaço enorme para o Theo e vamos nos divertir muito nos lambuzando de chocolate, chefinho — ela disse, a voz num sussurro carregado de audácia. — E quem vai pagar a conta, com o cartão de crédito mais caro que tiver na carteira, é você.
Ela se afastou com uma elegância irritante, dando-me as costas e seguindo em direção à cantina com a confiança de quem acabara de ganhar uma guerra sem disparar um único tiro.
E, mais uma vez, lá estava eu. Parado no meio do corredor, com o rosto ainda ardendo do tapa e o ego em frangalhos, deixado para trás com cara de idiota por uma garota que eu pensei que poderia controlar.

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