Cael Sterling
- OLHA A BOCA, GAROTA! - Elevei meu tom de voz, o impulso falando mais alto que o meu filtro habitual.
Imediatamente, pude sentir o peso dos olhares de julgamento dos outros pais ao redor. Ali, no portão de uma das escolas mais exclusivas da cidade, gritar com uma mulher não era exatamente a etiqueta esperada de um Sterling. Senti o peso da minha própria gafe social, mas a petulância dela me desarmava de um jeito que eu detestava.
- Quer saber? Vamos logo acabar com isso - sibilei, tentando recuperar os restos da minha dignidade. - Você precisa ser apresentada na recepção agora. Precisa fazer o cadastro biométrico e assinar como uma das responsáveis autorizadas para buscar o Theo. O sistema não aceita "sorrisos de deboche" como identificação.
Ela me encarou por mais um segundo, aquele maldito sorriso brincando no canto da boca, desafiando-me a perder o controle outra vez. Sem dizer uma palavra, ela simplesmente me deu as costas, fazendo o cabelo balançar com um movimento calculado, e começou a caminhar em direção ao portão principal.
Fiquei ali, parado no asfalto, sentindo-me como um idiota monumental enquanto observava a confiança nos passos dela. David deu um passo à frente, parando ao meu lado com aquele olhar de "eu avisei" estampado no rosto.
- Você está muito ferrado, irmão - ele murmurou, dando um tapinha de condolências no meu ombro antes de seguir Hannah para dentro da escola, deixando-me para trás com o eco da risada deles ainda ressoando nos meus ouvidos.
》☆☆☆☆《
O processo de cadastro da senhorita Brooks no sistema da escola foi, como esperado, razoavelmente burocrático. Nada fora do padrão — apenas o tipo de formalidade extensa que instituições de alto nível insistem em manter para preservar a própria reputação. Ainda assim, dentro do possível, tudo correu de forma tranquila.
Por se tratar de uma escola particular de alto padrão, qualquer pessoa autorizada a buscar uma criança — absolutamente qualquer uma — precisa estar devidamente registrada no sistema de reconhecimento facial da instituição. Sem exceções. Sem improvisos. Sem margem para erro.
E, para que esse cadastro seja aprovado, há uma lista quase interminável de exigências. Documentos de identificação, verificação de antecedentes criminais, autorizações formais dos pais ou responsáveis legais do aluno… uma sequência de etapas que, à primeira vista, pode parecer exagerada, quase paranoica.
Mas não é.
Já houve casos.
Casos em que, no meio de processos de divórcio particularmente turbulentos, um dos responsáveis tentou retirar a criança da escola sem o consentimento do outro. A escola impediu. E o que poderia ter se tornado um desastre maior foi contido ali mesmo, entre paredes bem monitoradas e protocolos que, naquele momento, provaram seu valor.
Houve até uma situação em que uma das partes pretendia fugir com a criança. Simples assim.
Então, sim… são muitas regras. Mas todas existem por um motivo claro: segurança. E, nesse cenário, reclamar delas chega a ser, no mínimo, um luxo desnecessário.
Terminamos a documentação — ou, sendo mais preciso, eu terminei.
Porque o projeto de ser humano sentado ao meu lado parecia desempenhar um papel completamente diferente naquela sala. Brooks mantinha a postura impecavelmente ereta, as mãos repousadas com delicadeza no colo, enquanto sustentava um sorriso doce e quase impecável nos lábios. Ela assentia, concordava, reagia com pequenos gestos educados a cada palavra dita pela diretora.
Era quase… teatral.
A senhora Cooper, por sua vez, conduzia tudo com a mesma voz harmônica e profissional de sempre, repetindo protocolos que claramente já havia decorado há anos. Falava sobre a política rígida de entrada e saída dos alunos, reforçava a importância dos contatos de emergência, detalhava os procedimentos para retiradas antecipadas — sempre mediante autorização formal, assinada por mim ou por Mia.
Por pouco tempo, talvez.
A ideia de manter Mia como responsável ainda estava… em revisão.
— Bem, senhorita Brooks, seu cadastro está finalizado — anunciou a senhora Cooper, com aquele tom impecável que beira a perfeição ensaiada. — Isso significa que está liberada para vir buscar o aluno Theodore Sterling. Como lhe informei, sempre que vier buscá-lo, basta se apresentar na recepção e passar pelo reconhecimento facial. São normas da escola para garantir a segurança de todos.
— Entendo perfeitamente, senhora Cooper — Brooks respondeu, sem hesitar, o sorriso gentil se aprofundando com naturalidade quase irritante. — E não terei problema algum em seguir todas as regras à risca. Em tempos como os que vivemos, é essencial zelar pelo cuidado e pela proteção das nossas crianças.
Claro.
Ela diz isso com tanta convicção que, por um instante, quase parece outra pessoa.
— Sem sombra de dúvidas, querida — a diretora concordou, satisfeita, mantendo o mesmo sorriso cordial. — Bem, não quero mais tomar o tempo de vocês. O pequeno Theodore já deve estar à sua espera.
Ainda recebemos algumas recomendações finais — detalhes menores, lembretes sutis — antes de finalmente nos despedirmos.
Saímos da sala e seguimos em direção ao segundo andar, onde ficava a sala de aula do Theo.
O corredor estava tranquilo, silencioso na medida certa, com aquele ar controlado típico de ambientes onde tudo funciona exatamente como deveria.
Caminhamos lado a lado.
Ou, ao menos, eu caminhava tranquilo.
O dia, até então, seguia de forma surpreendentemente pacífica. Tudo havia dado certo. Nenhum imprevisto. Nenhuma complicação. Em poucos minutos, eu pegaria Theo, voltaríamos para casa, e então — finalmente — eu poderia retornar ao escritório sem mais interrupções.
Simples.
Direto.
Sob controle.
Ou pelo menos… era o que parecia.


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