Hannah Brooks.
Quando finalmente atravessamos as portas de vidro do prédio, o vento frio da noite de Toronto nos atinge de uma vez, cortando a pele, trazendo um contraste quase cruel com o calor da raiva que ainda ferve dentro de mim. Arrasto Amelie até o meio da rua, onde seus gritos agora se espalham livremente, chamando ainda mais atenção.
Mais gente.
Mais olhos.
Mais plateia.
Paro.
Finalmente paro.
— Você queria um palco, irmãzinha… — digo, sorrindo, a voz baixa, mas firme o suficiente para atravessar o burburinho ao redor. — Então pronto.
Inclino levemente a cabeça, observando a cena como quem admira uma obra finalizada.
— Com direito à plateia.
Solto os cabelos dela com um empurrão seco, fazendo seu corpo cambalear alguns passos para frente. O desespero toma conta de Amelie de forma quase imediata, as mãos tremendo enquanto ela tenta, sem sucesso, se cobrir, se esconder, desaparecer. Mas não há para onde ir. Não mais.
— Filmem à vontade. — digo, fria, erguendo um pouco o queixo enquanto lanço o olhar para todos ao redor. — Essa vagabunda é minha irmã.
Minha voz corta o burburinho com facilidade.
— Eu acabei de chegar do trabalho, cansada pra caralho depois de um dia exaustivo… só pra encontrar ela na cama com o meu noivo. — continuo, cada palavra carregada de um peso que eu faço questão de deixar claro. — Depois de tudo que eu fiz por ela… TUDO… ela teve a audácia de dormir com ele e ainda tentar me humilhar.
Puxo o ar devagar, sentindo o peito subir e descer, forçando qualquer resto de tremor a desaparecer antes de voltar minha atenção exclusivamente para ela.
— E aí? — pergunto, inclinando levemente a cabeça, um sorriso sincero — quase leve — surgindo nos meus lábios. — Como é provar do próprio veneno, maninha?
O silêncio dura pouco.
O som de aplausos corta o ar.
Alto. Ritmado. Inesperado.
Minha atenção se desloca automaticamente, assim como a de todos ao redor. Os rostos curiosos se abrem, criando um pequeno corredor improvisado, e é então que eu vejo.
Sterling.
Parado à beira da multidão, os olhos azuis fixos em mim com uma intensidade sufocante, quase palpável. Há algo naquele olhar… algo que não combina com o caos ao redor. Algo frio. Calculista. Fascinado.
Meu coração falha por um segundo.
Só um.
Ele começa a andar na minha direção, abrindo espaço entre as pessoas com uma facilidade absurda, como um predador atravessando um bando que simplesmente… cede.
E todos cedem.
— Você foi brilhante, garota. — ele diz ao parar na minha frente, a voz rouca, baixa demais para o cenário, mas ainda assim perfeitamente audível.
Os olhos dele não saem dos meus.
— Simplesmente brilhante.
Engulo seco, mas sustento o olhar.
— Eu fui… — confirmo, quase automática, sentindo um estranho orgulho se instalar no meu peito.
E isso… isso é perigoso.
— Onde está o traidor? — ele pergunta, e há um desprezo tão claro na forma como ele se refere a Ryan que chega a ser quase físico.
— Lá em cima… — respondo, sem desviar os olhos. — Apanhou demais pra conseguir levantar sozinho.
Um canto dos lábios dele se ergue, satisfeito.
— Estou orgulhoso de você.
As palavras são simples. Diretas.
E ainda assim fazem meu estômago revirar de um jeito estranho.
Ele então desvia o olhar para a multidão ao redor, um sorriso de puro escárnio surgindo nos lábios.
— Dou dez mil dólares… — começa, a voz firme, cortando qualquer som ao redor. — pra quem tiver a gentileza de subir lá em cima e arrastar aquele traidor pra fora.
Uma pausa.

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