Hannah Brooks.
O aroma encorpado de café torrado e o murmúrio suave do bistro no centro comercial de Toronto deveriam me trazer algum tipo de conforto, mas a xícara de porcelana que seguro com as duas mãos apenas treme sutilmente contra os meus dedos. O ar frio lá fora contrasta com o calor abafado do ambiente, e tudo o que consigo fazer é encarar o vapor subindo do meu cappuccino intocado.
Na minha frente, Mia observa cada um dos meus movimentos com aquela atenção impecável que lhe é tão natural. Ela ajeita o casaco sobre a cadeira, apoia os cotovelos na mesa de madeira escura e me encara com um olhar que mistura carinho e uma leve desconfiança.
- Hannah, você está girando essa xícara há dez minutos e não deu um único gole - Mia quebra o silêncio, a voz baixa, divertida, mas carregada de preocupação. - Aconteceu alguma coisa na faculdade? Ou é o Cael que está te enlouquecendo com os preparativos do aniversário dele?
Solto um suspiro longo, encostando as costas no estofado do banco. Levo as mãos ao rosto, esfregando os olhos antes de encarar minha cunhada de frente.
- O Cael está ótimo. E a faculdade também - começo, engolindo em seco. Movo o olhar pela mesa até fixar nos olhos gentis de Mia. - O problema é que... Mia, é que eu estou prestes a ter um treco, por que... meu ciclo está atrasado.
Ela pisca, o sorriso leve congelando por uma fração de segundo antes de os lábios dela se abrirem ligeiramente.
- Atrasado quanto tempo? Alguns dias?
- Um mês e meio. - murmuro, baixando ainda mais o tom de voz, como se confessar isso em voz alta tornasse o fato real demais para suportar. - Mais de trinta dias, Mia. Na verdade, deveria ter vindo naquela semana em que o Cael voltou daquela viagem longa de negócios de Londres e Frankfurt... desde aquele dia o meu ciclo simplesmente sumiu.
Mia ergue as sobrancelhas, o choque dando lugar a um brilho quase imperceptível de emoção, mas ela se segura, notando o pavor estampado no meu rosto.
- E você não fez nenhum teste até agora, Hannah? Por quê?
- Porque eu estou apavorada! - a confissão sai rasgada da minha garganta num sussurro desesperado. Encosto a testa nas minhas mãos postas sobre a mesa. - Eu tenho vinte e quatro anos, Mia. Eu me formo em poucos meses. A minha vida foi um furacão absoluto no último ano... a descoberta da minha mãe, o resgate, a história da Amelie, os gêmeos... E agora isso? E se eu não estiver pronta? E se for rápido demais?
Mia estica o braço por cima da mesa e envolve minhas mãos trêmulas com as dela, apertando-as com firmeza.
- Hannah, olha para mim - pede ela, com uma voz tão serena e acolhedora que faz o meu peito desacelerar um pouco. Ergo o olhar. - Sentir medo é totalmente normal. Mas você não está sozinha. Você reconstruiu a sua vida com uma força que poucas pessoas teriam. E o Cael... pelo amor de Deus, Hannah, aquele homem é completamente louco por você. Ele respira por você.
- Eu sei que ele me ama - digo, a voz embargada enquanto engulo o nó na garganta. - Mas o Cael já tem o Theo. Eles já têm a rotina deles, a nossa vida está finalmente encontrando um eirado de paz depois de todo o caos. E se a reação dele não for a que eu espero? E se ele achar que um bebê agora vai atrapalhar a minha formatura, os nossos planos?
Mia solta uma risada curta e calorosa, negando com a cabeça.
- O meu irmão? O homem que quase derrubou Toronto para garantir a sua segurança? Se você estiver grávida, ele vai surtar de pura felicidade. Ele ama ser pai. Você vê como ele cuida do Theo, e vê como ele olha para você quando você está com o garoto. Mas nós não precisamos ficar adivinhando nada e sofrendo por antecipação. Nós vamos resolver isso agora.
Ela se levanta da mesa, pegando a bolsa.
- Para onde nós vamos? - pergunto, piscando surpresa.
- Para o hospital do seu tio Andrew - Mia decreta, o tom de voz não aceitando contestações. - Nada de testes de farmácia que vão te deixar ainda mais ansiosa com dúvidas. Vamos fazer o exame de sangue na clínica da sua família agora. Eu vou com você.
》》》☆☆《《《《
O trajeto até a ala VIP do hospital da família Voss passa como um borrão acelerado. O cheiro de produto de limpeza e o ambiente asséptico do laboratório privado apenas aumentam a minha náusea - uma náusea que, agora percebo, talvez não seja apenas nervosismo.
Sento-me na poltrona do consultório enquanto a enfermeira de confiança do tio Andrew, agindo sob total sigilo a pedido de Mia, colhe uma pequena amostra de sangue do meu braço. O processo leva menos de dois minutos, mas a espera pelo resultado parece durar séculos.
Ficamos nós duas na sala de espera privativa. Passo os dedos seguidamente pela alça da minha bolsa, a respiração curta. Mia senta ao meu lado, mantendo o braço entrelaçado ao meu, me transmitindo uma força silenciosa que impede que eu desabe antes da hora.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo