Sete meses depois.
Hannah Brooks.
Os últimos sete meses foram, sem sombra de dúvidas, os meses mais intensos, caóticos e corridos do meu ano. E este ano... céus, este foi de longe o ano mais insano de todos os meus vinte e quatro anos de vida.
Se alguém me dissesse no ano passado que eu terminaria um noivado duradouro, pediria demissão do meu emprego, pegaria meu ex-noivo e a minha própria irmã no flagra na minha cama, quebraria a casa inteira de tanta raiva, aceitaria um emprego completamente novo, tentaria enlouquecer meu novo chefe de todas as formas possíveis e terminaria perdidamente apaixonada por ele... eu juro que teria mandado a pessoa procurar internação psiquiátrica.
E isso sem contar todas as outras coisas. A descoberta da minha verdadeira origem, o resgate sangrento na Colômbia, a restauração da minha família. Se eu fosse parar para reorganizar todos os detalhes da minha história, daria sem dúvidas um livro de centenas de páginas. A minha vida inteira daria um livro de mistério, drama e romance de alto nível.
- Hannaaaah, desce aqui. É urgente! - a voz arfante de Mia ecoa no vão das escadas, carregada de uma urgência crua. Sinto um leve desespero transbordar em suas palavras.
Pelos céus, o que aconteceu agora?
Sério, depois de tudo o que eu passei nos últimos meses, qualquer menção à palavra "urgente" já faz as minhas pernas tremerem de forma quase violenta, a adrenalina subindo como um tiro no peito. Não são nem oito horas da manhã de uma quarta-feira. Será que não dava mesmo para esperarem o dia amanhecer direito antes de seja lá qual for a nova catástrofe?
Termino de abotoar o suéter, arrumo o cabelo rapidamente e desço as escadas em passos apressados.
Por favor, que não seja mais uma das cenas memoráveis onde o Theo e as gêmeas - minhas priminhas de quatro anos, filhas da tia Kiara - estão disputando cabo de guerra com alguma relíquia caríssima da mansão. De novo.
Estamos em pleno mês de janeiro, no auge das férias de inverno de Toronto. O fim de ano veio e passou de forma absolutamente caótica, mas valeu cada segundo de cada dia. A revelação pública do retorno da minha mãe, Adelaide, e da minha entrada oficial na família Voss causou um tremendo alvoroço na mídia internacional. Os jornais e emissoras não falavam de outra coisa por semanas.
Graças ao depoimento detalhado da minha mãe, a operação das autoridades conseguiu localizar e resgatar outras sete mulheres que estavam desaparecidas há anos, presas em cativeiros tão precários e desumanos quanto o dela. Todos os homens de confiança do Hernandez foram presos ou abatidos. E quanto ao próprio Hernandez... bem, o corpo dele foi encontrado meses atrás, em uma de suas propriedades abandonadas no México. Ninguém sabe oficialmente quem apertou o gatilho, mas temos as nossas fortes suspeitas na família.
Até porque o senhor Axel Stone se tornou suspeitamente próximo da minha mãe nos últimos meses. Porra, o homem está cantando a minha mãe abertamente, e ele é apenas três anos mais novo que ela! E para deixar tudo ainda mais inacreditável, a senhora Adelaide Voss está dando corda. Ou seja, existem grandes chances de eu ganhar um padrasto que tem praticamente a mesma idade do meu noivo. Incrível, não é?
Eu já deixei bem claro para o Axel que arranco as bolas dele fora se ele ousar magoar ou machucar a minha mãe depois de tudo o que ela passou.
O Cael me autorizou expressamente a fazer isso, e ainda garantiu com a maior serenidade do mundo que constrói uma sala de torturas privativa se eu precisar do equipamento adequado. Meu tio Andrew disse que me ajudaria com os procedimentos cirúrgicos, e o tio Anthony também se colocou à disposição. Anthony é o segundo irmão do meio, mais velho que a minha mãe por apenas um ano de diferença, e tem um senso de humor tão afiado quanto perigoso.
Obviamente, os três também ameaçaram arrancar as bolas do Cael se ele me fizesse sofrer de alguma forma.
Em suma, tenho uma família bastante protetora e levemente aterrorizante. Durante as comemorações de Ano Novo, também conheci a segunda parte da família estendida do Cael. Foram festas extremamente animadas, por assim dizer. A família distante dele é bem caótica no bom sentido, e eu me dei muito bem com quase todos eles... ou melhor, com quase todos.
O Cael tinha uma daquelas primas distantes que só aparecem em eventos grandes para tentar chamar a atenção a qualquer custo. Ela apareceu na festa usando um vestido vermelho bizarramente justo, colado ao corpo de forma vulgar, e ostentando uns dois quilos de maquiagem na cara. Até aí tudo bem, cada um faz o que quer com a própria imagem.
Mas a cobra teve a audácia de invadir o meu quarto e do meu noivo no meio da festa. Ela sentou na nossa cama e ficou esperando que o Cael entrasse sozinho... mas definitivamente não foi ele quem entrou.
A festa de Réveillon ganhou um nível totalmente novo de entretenimento enquanto o Cael tentava arrancar a cabeça dela de dentro da tigela de ponche de frutas na frente de todos os convidados. Meus sogros fingiram graciosamente que não viram nada, tomando seus espumantes como se nada estivesse acontecendo, enquanto os pais da garota ficaram absolutamente horrorizados. Comigo, claro, e não com o anjo perfeito deles. Eles foram embora logo em seguida sob olhares de deboche de toda a família.
Patético ver uma mulher de trinta e tantos anos se prestar a esse tipo de papel ridículo. E nem venham com essa história de "ah, mas ela pode ter errado de quarto". Temos câmeras de segurança por toda a casa, inclusive no nosso quarto, e a esse circuito apenas o Cael tem acesso. É uma brincadeira nossa, um joguinho particular de quando eu quero tirá-lo do sério à distância e fazê-lo largar as reuniões da Sterling Corp para chegar mais cedo em casa.
E pelas câmeras nos vimos aquela vadia mechendo nas minhas coisas.
Enfim, os últimos meses têm sido absurdamente corridos e intensos.

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