Narradora.
Andrew Voss deu dois passos para dentro da suíte, mantendo uma pasta de exames digitais sob o braço. Ele observou a cena por um segundo - a sobrinha sentada ao lado do leito, a mão firme de Cael segurando a dela - e permitiu-se um breve aceno de aprovação com a cabeça.
- Interrompo a reunião do casal? - perguntou Andrew, a voz calma e profissional quebrando a bolha de intimidade de ambos.
Hannah ergueu-se devagar, limpando o rosto com as costas da mão, mas sem soltar os dedos de Cael.
- Tio Andrew... não, imagino que venha avaliar o paciente - disse ela, esboçando um sorriso agradecido.
- Avaliar e garantir que o paciente não esteja desobedecendo às minhas ordens médicas - corrigiu Andrew, aproximando-se do leito e ajustando o fluxo do analgésico no painel digital. Ele checou as pupilas de Cael com uma pequena lanterna clínica e auscultou a reexpansão do pulmão esquerdo. - A ausculta pulmonar está limpa. O dreno está funcionando perfeitamente. Como está o nível de dor de um a dez, Sterling?
- Três - respondeu Cael sem piscar, a mentira estampada na tensão suave de sua mandíbula.
Andrew soltou uma risada curta e anasalada, balançando a cabeça.
- Se está dizendo três, na verdade é um seis ou sete. Homens e seu orgulho inútil... Mas a medicação vai manter a inflamação sob controle. O seu quadro é excelente para alguém que chegou aqui em choque hipovolêmico há poucas horas.
O médico voltou seu olhar para Hannah, a expressão suavizando-se para uma ternura genuinamente familiar.
- Hannah, o estado do Cael está absolutamente sob controle. Ele precisa descansar para a sedação residual terminar de metabolizar. E há alguém no quarto 904 que abriu os olhos há dez minutos e está pronta para ver você.
O coração de Hannah deu um salto violento dentro do peito. A respiração dela travou no ar. O momento que ela esperara por vinte e três longos anos, a resposta para todas as suas orações e pesadelos, estava a poucos metros dali, no final do corredor.
Ela olhou para Cael, a incerteza e o impacto daquele momento refletidos em seus olhos azuis-esverdeados.
Cael apertou a mão dela com firmeza, incentivando-a com o olhar.
- Vai, meu amor - disse Cael, a voz transbordando carinho e orgulho. - A sua mãe está te esperando. Eu vou estar bem aqui quando você voltar.
Hannah respirou fundo, absorvendo a força que ele lhe transmitia. Pressionou um último beijo carinhoso na testa de Cael, demorando-se ali por alguns segundos, antes de se virar para o tio.
- Estou pronta, tio Andrew - declarou ela, a voz firme.
Andrew assentiu, abrindo a porta para a sobrinha. Hannah deu um último olhar para Cael, que manteve o sorriso contido no rosto até a porta se fechar completamente, deixando a suíte de UTI para trás e caminhando em direção ao reencontro que mudaria sua vida para sempre.
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O corredor do nono andar parecia mais longo do que realmente era. Cada passo de Hannah sobre o piso emborrachado ecoava suavemente, um compasso lento marcado pelas batidas desordenadas do seu próprio coração. Ao seu lado, Andrew mantinha uma distância respeitosa, o olhar atento de quem conhecia a fragilidade daqueles dois corpos e daquela história.
- A sua mãe passou por duas décadas de isolamento absoluto, Hannah - explicou Andrew, o tom de voz baixo e cauteloso enquanto caminhavam. - O corpo dela está extremamente debilitado por desnutrição crônica e falta de luz solar, mas os sinais vitais estão estáveis. Psicologicamente, ela está num estado de hipervigilância, mas quando a Kiara mencionou você... o olhar dela mudou completamente.
Hannah engoliu em seco, as mãos frias entrelaçadas em frente ao corpo.
- Ela... ela sabe que eu sou a filha dela? Ela lembra de mim?
- Ela nunca teve a chance de segurar você nos braços, Hannah - Andrew parou diante da porta de madeira nobre com a numeração 904, a maçaneta prateada reluzindo sob a luz suave do corredor. - Hernandez a levou quando ela ainda estava no hospital, pouco depois de você nascer. Para ela, você sempre foi uma promessa interrompida, uma dor sem rosto que ela alimentou no escuro por vinte e três anos. Quando ela olhar para você agora... ela vai ver a vida que tentaram roubar dela.
Hannah fechou os olhos por três segundos. Inspirou o ar antisséptico do hospital, deixando que a presença de Cael no quarto ao lado lhe desse o último pingo de coragem necessário.
- Eu posso entrar sozinha? - pediu ela num fio de voz.
- A suíte é toda sua - respondeu Andrew, dando dois passos para trás e oferecendo um aceno encorajador com a cabeça.
com a mão trêmula, Hannah girou a maçaneta de metal e empurrou a porta devagar.

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