Cael Sterling
O silêncio que se segue no escritório é denso, sufocante. Kiara permanece imóvel por longos segundos, o peito subindo e descendo em arfadas curtas. A mulher cuja compostura é impecável e cuja postura aristocrática nunca vacila parece, agora, ter sido atingida por um raio.
— Minha sobrinha... — o murmúrio sai rasgado da garganta de Kiara, frágil e desacreditado.
Ela ergue os olhos devagar. Não há mais a distância formal de uma aristocrata ou a curiosidade fria de quem apenas buscava explicações para um rosto parecido. O olhar de Kiara sobre Hannah agora é carregado de um peso acumulado por quase três décadas de luto, busca e dor interrompida.
Lentamente, Kiara se inclina para a frente, as mãos trêmulas repousando sobre a mesa de madeira, fixando cada detalhe do rosto de Hannah.
— Os olhos... — a voz de Kiara embarga, e uma lágrima solitária escapa por sua bochecha antes que ela consiga contê-la. — Deus do céu, são os mesmos olhos. A mesma linha do queixo... Quando Adelaide sumiu, ela tinha doze anos. Nós vasculhamos o país inteiro, Cael. Meu pai gastou fortunas, movimentou políticos, a polícia... e ela estava... ela esteve grávida aos quinze anos em um hospital e ninguém nos contou. Ninguém nos achou.
— Porque a Valerie Kensington e a Celeste garantiram que ninguém achasse — intervenho, mantendo o tom firme e cortante. — Elas sumiram com os registros, pagaram pelo silêncio dos envolvidos e, pouco tempo depois, a maternidade pegou fogo em circunstâncias no mínimo convenientes. Apagaram o rastro para que a Hannah fosse criada como uma Brooks.
Hannah, que permaneceu em silêncio absoluto absorvendo a reação da tia, solta um suspiro profundo. Ela se ajusta na poltrona e, com a dignidade que a caracteriza, encara Kiara nos olhos.
— Eu passei a minha vida inteira achando que não me encaixava naquela família porque era apenas uma 'decepção' para a Celeste — diz Hannah, a voz suave, mas sem qualquer vestígio de fraqueza. — Descobrir que fui comprada por cinquenta mil dólares foi um golpe absurdo. Mas ver que a minha existência não foi um erro... e sim o resultado de um crime contra a sua irmã... muda tudo para mim.
Kiara estende a mão hesitante por cima da mesa, parando a centímetros dos dedos de Hannah, pedindo permissão em um gesto silencioso. Hannah não recua. Ela aceita o toque, deixando que a tia segure sua mão com força desesperada.
— Você não é um erro, Hannah — Kiara diz, a voz trêmula de emoção contida, encarando a garota como se visse um milagre. — Você é o único pedaço da minha irmã que sobrou neste mundo. Se o meu pai estivesse vivo para ver isso... se ele soubesse que a neta dele estava viva esse tempo todo...
Ela se interrompe, engolindo em seco, e volta o olhar para mim, a firmeza dos Voss ressurgindo aos poucos por trás das lágrimas.
— Cael. Você tem algo? Uma prova física? algo que confirme que a garota que deu a luz naquela data era mesmo a minha irmã?
— Existe algo, uma medalha que foi descrita por Celeste em um interrogatorio, a mesma que contem o nome da Adelaide foi localizada por Axel Stone no cofre do antigo escritório da Celeste — respondo com frieza calculada. — Está sob custódia e em local seguro. Além disso, os livros de registros ilegais da clínica clandestina que a Valerie manteve em Creemore também foram apreendidos. A cadeia de provas está montada.
Kiara assente devagar, a mente de estrategista voltando a funcionar mesmo sob o choque emocional.
— Isso precisa de um teste de DNA oficial. Sigiloso, feito pelos laboratórios de confiança da minha família. Não por dúvida sobre o que você está me dizendo, Cael — ela olha para Hannah com um calor genuíno —, mas porque quando essa bomba estourar no conselho dos Voss e diante da sociedade, a margem para qualquer contestação precisa ser zero. A Hannah tem direitos. Ela é uma Voss, herdeira legítima de metade de tudo o que Adelaide deixou.
— A prioridade aqui não são os títulos ou a herança dos Voss, Kiara — me imponho, cruzando os braços e encarando-a com autoridade absoluta. — A prioridade é a segurança da Hannah. Ninguém da sua família, nenhum acionista da Sterling Corp e nenhum jornalista vai saber de uma única palavra sobre isso até que eu e o Axel fechemos o cerco contra os responsáveis.
— Eu concordo com o Cael — Hannah intervém, apertando levemente os dedos de Kiara antes de soltar sua mão. — Eu não quero escândalos com o meu nome nos jornais, Kiara. Eu quero a verdade, quero que a memória da minha mãe seja respeitada e quero que os criminosos paguem pelo que fizeram. Só isso.
Kiara respira fundo, enxugando o rosto com a ponta dos dedos e recompondo a postura impecável na poltrona.
— Você tem a minha palavra, Hannah. Nada sai desta sala até que vocês deem a ordem. Mas... — Kiara hesita, uma dúvida angustiante voltando a sombrar seu olhar enquanto encara a mim e a Hannah. — Tem algo que não se encaixa. O parto foi em 1997. A bebê foi levada. Mas e a Adelaide? O que a enfermeira disse que aconteceu com a minha irmã depois que ela acordou naquele banheiro?

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