Cael Sterling.
Respiro aliviado quando o último convidado finalmente cruza os portões e deixa a propriedade. A mansão, antes tomada pelo caos do escândalo, agora repousa em um silêncio quase irreal.
Após o espetáculo da fonte, passei a última hora gerenciando uma contenção de danos cirúrgica e implacável. Todos os presentes tiveram seus celulares retidos na saída, onde fotos, vídeos e áudios gravados durante o surto da Serena foram sumariamente deletados pela minha equipe de segurança. Apenas depois dessa varredura completa os convidados foram liberados para ir embora.
É claro que tudo isso veio acompanhado de uma conversa direta e sem curvas.
O que aconteceu aqui hoje morreu dentro destes portões. Qualquer um que ousar mencionar o ocorrido ou tentar vazar o menor detalhe para a imprensa já sabe perfeitamente que estará comprando uma guerra aberta contra mim. O nome Sterling carrega um peso avassalador nos círculos mais altos da sociedade, e eu estou mais do que disposto a usar cada gota desse poder se isso significar proteger a reputação e a integridade da minha noiva.
— Foi um longo dia — uma voz feminina e pausada ecoa, vindo de uma das extremidades do salão agora devastado e deserto. — Devo admitir que achei a Hannah extremamente simpática.
Solto o ar lentamente pelo nariz, virando-me para encontrar Kiara assentada de forma elegante em uma das poucas mesas intactas, observando os garçons e funcionários começarem o processo de desmontagem e limpeza do ambiente.
— Você ainda está aqui? — pergunto, cruzando os braços enquanto a encaro de frente.
— Você me prometeu que teríamos uma conversa séria antes do fim da noite — ela responde sem hesitar, mantendo aquele tom de voz afiado, monótono e impecavelmente controlado de sempre. — Eu preciso entender, Cael. Eu preciso saber por que a sua noiva parece uma versão mais jovem da minha irmã falecida, como se ela tivesse chegado aos vinte anos.
— Pessoas podem ser parecidoas, Kiara. O mundo é grande — minhas palavras escapam sem qualquer empolgação, tentando esquivar o foco principal da questão.
— Parecidas, sim. Coincidências genéticas acontecem — ela rebate, a firmeza e a convicção tomando conta de cada sílaba. — Mas uma cópia idêntica, com os mesmos traços marcantes? Não. Isso não é coincidência.
Analiso o olhar perspicaz dela por alguns instantes, reconhecendo que não há como adiar o inevitável.
— Vamos até o meu escritório — digo, indicando a escadaria principal com um gesto de cabeça. — Existem mais camadas e segredos nessa história do que você é capaz de imaginar.
Kiara assente em silêncio, entendendo perfeitamente que um assunto dessa magnitude e gravidade não deve ser tratado em um salão exposto. Ela se levanta com elegância e me segue até o segundo andar. Caminhamos pelo corredor silencioso até a porta de madeira maciça do meu santuário particular. Giro a chave, abro a porta e dou espaço para que ela entre primeiro.
Faço o mesmo logo em seguida, mas quando estou prestes a puxar a porta para fechá-la, a figura de Hannah surge no corredor.
Ela já havia tomado um banho e trocado o vestido verde-oliva encharcado por roupas leves e confortáveis. Seus cabelos ainda ligeiramente úmidos estavam presos em um coque despojado, e o pequeno corte no seu lábio inferior era a única marca visível da batalha de mais cedo.
— Achei que você estivesse descansando no quarto — digo, parando e encarando-a por alguns segundos, meu olhar varrendo seu corpo para me certificar de que ela estava realmente bem.
— A sua mãe está no quarto do Theo cuidando dele e do filhote. A Mia e o David já foram embora... o David acabou levando o Henry e o segundo filhote, porque pelo visto o seu pai fez questão de trazer um cachorrinho para cada neto — ela conta, um meio sorriso suave e genuíno surgindo em seus lábios, fazendo com que uma expressão de puro espanto e incredulidade surja no meu rosto.
— O meu pai fez o quê?... — murmuro, balançando a cabeça diante do absurdo, mas Hannah logo retoma a postura séria, dando um passo à frente.
— Eu quero participar desta conversa, Cael...
— Hannah, eu não acho que seja uma boa ideia agora. Você passou por um estresse absurdo hoje, precisa...
— Por favor... — a voz dela ecoa baixa, suave e pausada, em um contraste absurdo com a fúria devastadora de uma hora atrás na fonte. — Isso tem a ver comigo. É a minha vida, a minha história e o meu passado que estão em jogo aqui, certo?
— E se as coisas tomarem um rumo pesado? E se as revelações...
— Eu saio — ela me interrompe antes que eu consiga concluir a pergunta, mantendo o olhar fixo no meu. — Se ficar pesado demais, se me fizer mal ou se você achar que não deve continuar me contando naquele momento, eu saio do escritório sem discutir. Prometo.
Respiro fundo, preso no brilho profundo e magnético daquelas safiras esverdeadas que cobrem seus olhos. É impossível negar qualquer coisa a essa mulher quando ela me encara dessa forma. Deixo um meio sorriso de rendição surgir no canto dos meus lábios.
— Tudo bem... venha.

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