Cael Sterling.
Acompanho cada movimento com atenção minuciosa e uma ponta palpável de preocupação, observando a forma quase desesperada como Kiara se ancora ao abraço de Hannah. Os tremores que percorrem seu corpo e seus soluços sufocados são capazes de partir o coração de qualquer homem. É impossível não me pegar tentando mensurar o peso da dor que essa mulher carrega em silêncio há tanto tempo.
A tortura da dúvida constante. A incerteza dilacerante de não saber o que de fato aconteceu com a sua irmã mais nova.
O fato cruel de que Adelaide pode ou não estar viva em algum lugar deste mundo, e a chama da esperança que, com certeza, foi se apagando e se transformando em cinzas aos poucos, dia após dia, ao longo das décadas. Quase trinta anos... Trinta anos é um oceano de tempo para passar procurando por alguém sem obter uma única resposta concreta.
Quando as duas finalmente rompem o enlace, Hannah murmura algo em um tom tão baixo que não consigo captar. No momento exato, o garçom que eu havia abordado discretamente há poucos minutos reaparece sem fazer alarde, trazendo uma bandeja de prata com um copo de água mineral e um comprimido. Pelo estado emocional visivelmente frágil de Kiara, eu tinha a absoluta certeza de que ela precisaria de algo para assentar os nervos.
Elas se distanciam a passo lento. Por alguns segundos que parecem eternos, Kiara permanece estática, encarando Hannah com um fascínio doloroso. O mesmo tom vibrante de verde emite brilho naqueles olhos — a marca registrada e inconfundível que a minha mulher carrega no olhar.
Kiara estuda cada centímetro dos traços de Hannah, os ângulos da maçã do rosto, a curva do queixo, como se quisesse gravar desesperadamente aquele rosto na memória antes que ele se esvazie.
— Beba isto, vai ajudá-la a se acalmar — digo com firmeza contida, ajustando minha postura e estendendo a ela o comprimido ainda selado no blíster. — É um ansiolítico leve, apenas para aliviar o pico de tensão e desacelerar os batimentos.
Hannah dá um passo sutil para trás, recolhendo-se para o meu lado. Ela cruza o braço no meu em um instinto de busca por porto seguro, embora não desvie o olhar preocupado de Kiara nem por uma fração de segundo.
— Eu... eu agradeço, Cael — murmura Kiara, pegando a água com as mãos levemente trêmulas e engolindo o remédio de uma vez. — Peço que me perdoem por esta cena ridícula e pelo incômodo. Eu juro por Deus que não foi minha intenção causar nada disso, eu apenas...
— Está tudo bem, de verdade — Hannah a interrompe com aquela voz aveludada e serena que só ela possui, capaz de tranquilizar o ambiente mais caótico.
Em seguida, minha mulher se vira para me encarar.
Consigo enxergar com clareza cristalina através daquelas orbes esverdeadas, por trás da máscara de compostura que apenas quem a conhece na intimidade saberia decifrar. Há um desconforto latente ali. Um receio genuíno, uma súplica silenciosa me dizendo sem palavras que ela simplesmente ainda não estava preparada para encarar o furacão daquela revelação.
— Cael... — ela me chama em um sussurro sutil, usando aquele tom que faz meu peito se estreitar. — Eu vou ali me certificar de que o Theo não consuma todo o estoque de chocolate do carrinho de pipoca.
Ela esboça um sorriso doce, mas conheço cada microexpressão do seu rosto: a angústia ainda está pulsando por trás dos seus olhos. Aquilo era apenas uma desculpa perfeitamente elegante para se retirar sem parecer indelicada.
— Nem me lembre dessa tragédia, amor. Da última vez que o Theo teve acesso a tanto açúcar, ele só foi pregar o olho passava das quatro da manhã — respondo, mantendo o tom leve e curvando os dedos para acariciar sua bochecha com a ponta dos polegares. Sei que esse toque, por mais simples que pareça diante dos outros, transmite a ela toda a segurança de que precisa agora. — Vai lá. Me chama imediatamente se precisar de qualquer coisa.
Hannah sorri com mais sinceridade desta vez, estica-se na ponta dos pés para me roubar um selinho rápido, pede licença a Kiara com um aceno elegante e se afasta. Ela caminha com passos graciosos em direção ao carrinho estilizado onde Theo já ostentava um saco de pipoca maior do que a própria cabeça, gesticulando animadamente para que o pipoqueiro adicionasse mais uma camada de calda.

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