Narradora.
A noite caiu de forma lenta e sinuosa sobre Creemore. Nos arredores isolados da cidade, em um galpão abandonado que há muito deixara de servir ao comércio local, a escuridão densa era quebrada apenas pela iluminação fraca, amarelada e vacilante de uma sala de interrogatório improvisada nos fundos do espaço.
Os gritos histéricos de uma mulher em puro desespero rompiam o silêncio pesado da madrugada, cortando aquela falsa paz noturna como navalhas afiadas que ricocheteavam nas paredes de concreto frio.
Valerie Kensington se debatia furiosamente em uma cadeira de metal desconfortável, rangendo a estrutura enferrujada enquanto tentava, em vão, soltar as mãos e os pés firmemente amarrados.
Ela gritava aos quatro ventos e a quem quer que se interessasse em ouvir que iria procurar imediatamente os seus direitos, que acionaria seus advogados influentes, que não aceitaria sob hipótese alguma aquele tipo de tratamento degradante, além de disparar outras milhares de ameaças que, para Axel Stone, eram absolutamente irrelevantes e vazias naquele momento.
Ele poderia simplesmente calá-la sem qualquer esforço. Seria fácil aplicar um sedativo forte, capaz de apagar um leão em questão de segundos, ou quem sabe acertar uma coronhada precisa na base de sua cabeça.
Entretanto, ainda que sua paciência estivesse por um fio extremamente tênue, Axel precisava dela consciente.
A invasão armada à sua clínica clandestina havia sido bem-sucedida até demais, culminando na apreensão de registros minuciosos - inúmeros livros e cadernos que comprovavam não apenas a prática de abortos ilegais, mas também um esquema podre de venda de recém-nascidos para famílias de alto poder aquisitivo, o que configurava, sem margem para dúvidas, crime de tráfico humano.
Seus homens mais de confiança vasculharam cada centímetro daquele local sórdido, recolhendo tudo o que consideravam importante e até mesmo o que parecia descartável à primeira vista.
Tudo ali era uma pista potencial; tudo poderia levar diretamente ao paradeiro de Adelaide Voss e, coincidentemente, revelar o que realmente aconteceu entre as paredes daquele hospital há mais de vinte anos.
Axel deu uma última tragada profunda em seu cigarro, sentindo a fumaça tóxica preencher seus pulmões antes de jogar a bituca contra o chão áspero e apagá-la sem pressa com a sola do sapato de couro.
- Ninguém entra - ordenou em um tom de comando absoluto aos dois homens armados que guardavam a entrada, antes de finalmente caminhar em direção à minúscula e abafada sala.
O ambiente fedia a uma mistura nauseante de poeira acumulada, ferrugem, umidade e mofo.
A mulher estava presa exatamente no centro do cômodo, e seus olhos arregalados se voltaram para Axel no instante em que ele cruzou o limiar da porta. Olhos castanhos e gélidos o encararam sem disfarçar o ódio visceral e o pavor silencioso que a consumiam naquele segundo.
- Valerie Kensington, é um absoluto prazer conhecê-la - a voz de Axel ecoou pela sala, seu timbre baixo, controlado e quase aveludado, mas carregado de um sarcasmo evidente que escorria por cada palavra proferida. - Peço que me perdoe pela demora. Sou um homem extremamente ocupado e acabei me atrasando um pouco para o nosso encontro. Espero sinceramente que as acomodações preparadas pelos meus homens estejam do seu agrado.
Valerie estreitou os olhos, queimando de fúria ao encarar a figura imponente do homem à sua frente.
- Me solta agora, seu filho da puta desgraçado! - rosnou ela, a voz falhando pelo esforço enquanto se sacudia na cadeira, tentando em vão se livrar das cordas grossas que cortavam seus pulsos. - Você não faz a menor ideia de com quem está se metendo!
- Ameaças vazias não funcionam comigo, Valerie - disse Axel calmamente, deixando um meio sorriso gélido tomar conta de seus lábios. - Eu sei perfeitamente quem você é. Valerie Kensington, ex-enfermeira-chefe do Hospital Maternidade Saint Jude. Se aposentou misteriosamente logo após o prédio ser destruído por um incêndio anos atrás e abriu uma clínica clandestina aqui mesmo em Creemore, realizando procedimentos ilegais e, coincidentemente, matando diversas mulheres jovens no processo devido à sua negligência.
Axel começou a caminhar devagar ao redor da cadeira, seus passos calmos, calculados e firmes ressoando contra o piso de concreto cru.
- Sabe, é extremamente fácil descobrir esse tipo de podridão quando se tem uma equipe altamente especializada e, mais do que isso, alguém com bolsos fundos pagando muito bem para que todo o seu passado seja escavado - disse ele, o tom gélido em sua voz sendo mais do que suficiente para fazer um arrepio espesso percorrer a espinha de Valerie, e não de uma forma agradável. - Mas não vamos perder tempo falando disso agora. Talvez você prefira me contar com detalhes sobre a rede de tráfico de bebês que opera na sua clínica... ou quem sabe você prefira me falar exatamente o que aconteceu com aquela garota que deu à luz no banheiro do Saint Jude no dia 17 de agosto de 1997.
Valerie empalideceu quase instantaneamente no milissegundo em que Axel pronunciou aquela data específica.
A pouca cor que restava em seu rosto desapareceu por completo.

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