Narradora.
Dois médicos plantonistas e três enfermeiras romperam as portas do posto em disparada, os sapatos estalando contra o piso vinílico limpo enquanto empurravam um carrinho de parada e traziam kits de contenção mecânica nas mãos.
Quando a equipe médica invadiu o quarto, a cena era o próprio retrato do descalabro e do descontrole. O ar continha o cheiro de ferro do sangue que escorria pelo nariz de Gabriel, que mantinha uma toalha pressionada contra o rosto, atordoado.
Sebastian usava todo o peso do seu corpo e dos braços para prender os ombros de Cael contra o colchão, com os músculos das costas se contorcendo pelo esforço de conter um homem de quase dois metros que se debatia em puro delirium, como um animal ferido e encurralado.
A chegada abrupta dos jalecos brancos, o barulho de luvas de procedimento sendo calçadas às pressas e as luzes fortes do teto acesas para o procedimento só incendiaram ainda mais o pavor dissociado na mente de Cael.
- Prepara cinco de midazolam e cem de fentanil em bolus! Agora! - ordenou o médico principal, com a voz impositiva cortando o Caos, enquanto uma das enfermeiras corria para conectar a seringa calibrada diretamente na torneirinha do equipo de soro no braço dele. - Segura o braço esquerdo! Ele vai arrancar o cateter! Vamos conter o paciente antes que ele tenha uma arritmia fatal ou rasgue a veia!
Cael viu o movimento rápido das enfermeiras ao redor do leito, sentiu o cheiro áspero do álcool antisséptico no ar e o cérebro traumatizado interpretou aquilo como a ruína final, uma armadilha para apagá-lo outra vez.
- Não! Me solta! Me solta, caralho! - ele tentou rugir, mas da sua laringe machucada e inflamada pela intubação recente só saíam arranhões dolorosos, urros roucos, agudos e desesperados que rasgavam sua garganta em carne viva.
As lágrimas continuavam a jorrar sem controle pelos seus olhos azuis e injetados, sujando o travesseiro hospitalar. O peito dele subia e descia em uma frequência assustadora.
Ele se contorcia com uma força quase descomunal, impulsionada pelo puro pavor de ser dopado e acordar sem nada, fincando os pés no lençol para tentar empurrar o próprio corpo para fora da maca, enquanto três profissionais tentavam aplicar as faixas de contenção de lona em seus pulsos.
O monitor cardíaco fixado na parede apitava em um tom contínuo, agudo e ensurdecedor, registrando uma taquicardia sinusal assustadora que ultrapassava os 160 batimentos por minuto.
- Cael, ouça-me, você precisa se acalmar! Nós iremos aplicar uma medicação no seu cateter para você descansar! - o médico avisou alto, aproximando-se da cabeceira enquanto as enfermeiras tentavam firmar o braço esquerdo dele, que repuxava a linha do acesso venoso periférico, já banhada em sangue que começava a manchar o lençol branco em manchas escarlates.
- Não! Eu não quero ficar aqui! Eu não quero mais remédio, porra! - ele esperneava, a voz falhando pelo esforço e pela adrenalina. - Eu quero a minha mulher! Eu quero o meu filho! Me deixa sair... me devolve a minha família! Hannah! HANNAH!
- Senhores, por favor, todos para fora do quarto! Agora! - a enfermeira ordenou de forma implacável, empurrando Sebastian e o ferido Gabriel em direção à saída para dar espaço para o procedimento da equipe. - O ambiente saturado está piorando a agitação psicomotora do paciente!
- Eu não vou deixar o meu irmão nesse estado! - Gabriel protestou com a voz anasalada pelo sangue, mas foi arrastado para trás pelo braço de David.
Foi exatamente nesse segundo de colapso absoluto que a porta de correr da entrada principal da ala se abriu com um estrondo pneumático.
Hannah e Mia surgiram a passos apressados no corredor. Mia vinha logo atrás, mas Hannah travou no meio do caminho assim que o som rasgado e lancinante daquela voz ecoou pelas paredes estéreis, vindo de dentro daquele quarto em festa de alarmes.
Era o Cael. Gritando por ela. Implorando por ela como se estivesse no fundo de um poço escuro e sem retorno.
Os olhos verdes de Hannah se arregalaram em choque puro, as pupilas dilatando instantaneamente. A pele dela empalideceu, perdendo a cor por um segundo, mas a dúvida não encontrou espaço para se instalar em sua mente. Uma descarga elétrica de adrenalina pura atingiu sua espinha.
Sem pensar duas vezes, ignorando a bolsa no ombro que escorregava e deixando Mia para trás, Hannah disparou pelo corredor. O som rítmico e cortante dos seus saltos contra o piso limpo atropelou o barulho dos alarmes eletrônicos que vazavam pela porta.
- Senhorita, você não pode entrar aí! É uma área restrita, intercorrência em andamento! - uma das técnicas tentou se interpor na frente da entrada do apartamento, erguendo as mãos rigidamente para bloqueá-la.
Hannah nem sequer reduziu o passo. O mundo ao seu redor havia se reduzido àquele chamado desesperado. Ela simplesmente usou o peso do próprio corpo e o ombro para desvencilhar-se da mulher com uma firmeza implacável e silenciosa, invadindo o quarto de isolamento como uma força da natureza que ninguém ali dentro seria capaz de conter.
- Cael! - a voz de Hannah projetou-se clara, firme e cortante, sobrepondo-se ao Caos absoluto do cômodo.
No instante em que aquele nome saiu dos lábios dela, o tempo no quarto pareceu desacelerar, congelando a ação dos profissionais.
Cael, que estava prestes a ter o sedativo empurrado pelo êmbolo da seringa na torneirinha do equipo, travou. Os movimentos violentos de suas pernas cessaram no ar no mesmo milésimo de segundo. O peito dele, que afundava em hiperventilação, parou por um segundo no topo, prendendo o ar nos pulmões como se o mundo dependesse daquele silêncio.
Hannah avançou resoluta pelos médicos, ignorando o sangue na camisa de Gabriel, ignorando os bipes de alerta do monitor e os avisos de segurança da equipe. Uma das enfermeiras ainda tentou um movimento para segurar o tecido do seu casaco e puxá-la fisicamente para fora, mas o médico intensivista, ao notar que o paciente paralisara o olhar na intrusa e cessara imediatamente toda e qualquer resistência física, ergueu a mão espalmada de forma abrupta.
- Espere. Não injeta ainda. Segura a medicação - ordenou o médico em voz baixa, mas autoritária, monitorando atentamente a mudança clínica súbita.
Hannah parou ao lado da maca, o peito subindo e descendo com força.

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