Hannah Brooks.
O som do motor do carro desligando na garagem da mansão parecia alto demais, quase agressivo contra o silêncio absoluto que nos esperava.
O trajeto desde o hospital tinha sido um borrão de luzes da cidade e o barulho constante dos meus próprios pensamentos atropelando uns aos outros. Quando abri a porta principal e dei o primeiro passo para dentro da sala de estar, a sensação não foi a de voltar para casa.
Foi a de invadir um mausoléu imenso, frio e terrivelmente funcional.
A casa, que já era gigantesca por natureza, parecia ter triplicado de tamanho sem a presença física do Cael. Não havia o som dos brinquedos do Theo espalhados pelo chão, não havia os passos pesados do dono da casa ecoando pelo piso de mármore e nem aquele cheiro característico de café recém-passado misturado com o perfume amadeirado dele.
Era apenas o vazio.
Um vazio pontudo que parecia espetar a pele.
Senti um nó apertar a minha garganta e dei dois passos lentos em direção à escadaria principal, encarando os degraus como se estivesse prestes a escalar uma montanha. Ao meu lado, Mia soltou um suspiro pesado, ajustando a bolsa no ombro enquanto olhava para o corredor do fundo.
- Deus, essa casa parece duas vezes maior quando tá vazia. - Mia murmurou ao meu lado, a voz saindo quase como um sussurro, como se tivesse medo de desacatar o silêncio.
- É como se o proprio espaço sentisse falta dele... de todos nós. - concordei, respirando fundo sabendo que eu não era o a única a sentir aquele peso.
- Certo, vamos nos dividir e ganhar tempo. O tempo está correndo e a gente precisa cobrir o máximo de espaço possível - Mia quebrou o silêncio, a voz soando baixa, quase respeitosa demais para o tamanho do lugar. - Eu vou dar uma olhada na biblioteca. O Cael costuma passar horas trancado lá quando precisa descarregar a cabeça e esconder papéis antigos.
Parei no primeiro degrau da escada e me virei para ela, franzindo o cenho.
- Biblioteca? - perguntei, arqueando uma sobrancelha. - Mia, eu moro aqui há meses. Ele tem um escritório principal, a sala de reuniões no andar superior e a suíte. De onde diabos você tirou uma biblioteca?
- Do porão - ela respondeu com a maior naturalidade do mundo, como se estivesse falando da cozinha.
Pisquei duas vezes, desacreditada.
- E desde quando a gente tem a porra de um porão nesta casa?
Mia parou a um passo do corredor de serviço, virando o rosto para mim com uma expressão que misturava choque e puro deboche.
- Como assim "desde quando"? Hannah, a mansão tem três andares para cima e um para baixo. Você nunca desceu até o subsolo?
- Não! - respondi, soltando os braços ao lado do corpo. - Eu achei que aquela porta do corredor era só um depósito de produtos de limpeza ou o quadro de força da casa! Eu nunca desci lá!
- Garota, você mora com um bilionário misterioso e nunca foi bisbilhotar o porão? - Mia soltou um riso soprado, balançando a cabeça em um instante rápido de leveza que fez o peso do meu peito diminuir um milímetro. - Certo, depois a gente tem uma conversa séria sobre os seus dotes de investigação residencial. Agora vamos focar no que precisa ser feito. Você assume o escritório do andar de cima, e eu vasculho o porão. Se achar qualquer coisa com o nome da Serena, me avisa.
- Combinado - respondi, sentindo o canto dos meus lábios esboçarem um tremor antes que ela se virasse e sumisse pelo corredor.
Respirei fundo, agarrando o corrimão de madeira nobre e subindo os degraus um a um.
A leveza momentânea da conversa com a Mia se dissipou com a mesma rapidez com que veio a cada passo que me aproximava do segundo andar. O corredor superior parecia mais longo, mais escuro, com a luz do sol da tarde cortando as cortinas em filetes dourados e poeirentos.
Parei diante da grande porta de madeira maciça do escritório de Cael.
Minha mão hesitou a centímetros da maçaneta de metal. O ar ao redor pareceu subitamente denso, difícil de puxar para os pulmões. Engoli em seco, envolvi os dedos no metal frio e empurrei a porta devagar.
O rangido suave da dobradiça foi o gatilho perfeito para o tempo retroceder em um solavanco violento dentro da minha cabeça.
A atmosfera do cômodo me atingiu como uma onda de choque. Bastou encarar a penumbra daquele espaço para que as lembranças daquela noite me atropelassem de uma vez só, me puxando de volta para a dor sem pedir licença.
Minha mente reconstruiu cada detalhe com uma clareza cruel.
Olhei para a poltrona de couro escuro perto da lareira apagada e quase pude ver a silhueta dele ali, rígida, defensiva, escondendo uma tempestade corrosiva por trás de frases ríspidas e chamamentos formais.
Lembrei-me perfeitamente do peso do corpo dele quando me sentei em seu colo, do aperto violento e desesperado dos seus braços ao redor da minha cintura, do hálito quente no meu pescoço enquanto ele suplicava para que eu não o deixasse... para que eu não fosse embora ao perceber o homem quebrado que ele era.
Pude ouvir novamente a voz dele, rouca e pesada de culpa, confessando seus fantasmas antes que as pálpebras ficassem pesadas demais. Revivi a dor fria no meu próprio peito quando percebi suas pupilas dilatadas, a pergunta desesperada que escapou da minha boca e o momento exato em que a cabeça dele tombou para trás, inerte, enquanto ele apagava nos meus braços por conta da overdose daqueles malditos comprimidos.
A lembrança de mim correndo feito louca pelos corredores, esmurrando a porta da Mia, o pânico do frasco de tarja preta vazio sobre a mesa de carvalho, e depois os paramédicos levando o corpo desacordado dele em uma maca enquanto eu me debatia em puro desespero... Tudo voltou queimando na minha garganta.
Apertei os olhos com força, encostando as costas contra a madeira da porta fechada. Puxei o ar com dificuldade, sentindo aquele mesmo nó esmagador ameaçar me sufocar.

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