Hannah Brooks.
Faz algum tempo desde todo o acontecimento no quarto de Cael. Duas ou três horas, no máximo.
Assim que os médicos deixaram a sala depois daquele turbilhão de gritos e monitores apitando, Mia e eu trocamos aquele tipo de olhar que corta o ar. O tipo de olhar que diz, sem precisar de uma única palavra, que tem muito mais sujeira e pavor por trás das palavras arrastadas dele do que nós duas ousávamos imaginar.
Ela agiu por puro instinto de defesa, ligando para os irmãos e avisando que o Cael tinha dado um sinal de vida, mas ocultando cirurgicamente a frase sobre o Theo. Meia hora depois, Sebastian e Gabriel chegaram ao hospital como dois furacões de preocupação e gravatas desalinhadas.
Mia inventou uma desculpa perfeita sobre me levar para comer algo na cafeteria, alegando que a emoção tinha sido forte demais e que eu precisava colocar algo no estômago antes que desmaiasse também. Os dois não desconfiaram de nada. Assumiram o posto ao lado da maca, e nós duas saímos.
E agora... bem, agora estamos aqui.
Sentadas na mesa mais isolada e escura do canto da lanchonete, cercadas pelo cheiro enjoativo de pão na chapa e o barulho distante de talheres.
- Certo, então você acha mesmo que pode ser a ex-mulher dele... a Serena - digo em um tom baixo, tomando um gole do meu café. Preto, forte e sem açúcar.
O suficiente para me manter sã e com os olhos abertos depois de uma noite inteira acordada, orando a toda e qualquer entidade para que o meu homem resolvesse acordar de uma vez por todas.
- Eu não só acho, Hannah, eu tenho certeza absoluta - Mia sussurra, inclinando o corpo sobre a mesa. O tom de frustração e raiva é visível em seus olhos. - Aquela vadia deve ter torrado até o último centavo do acordo milionário que arrancou do meu irmão no divórcio. Ela passou anos sumida, e agora essa desgraçada resolveu reaparecer. Ela sabe que o único ponto fraco do Cael no universo é o Theo. Ela está usando a nossa maior preciosidade como moeda de troca.
É notável a fúria nos olhos da Mia, mas também o pavor de ver a família ser destruída de novo. E eu... bom, eu estou completamente transtornada por aquele ser humano teimoso de quase dois metros de altura que, para meu agrado ou desespero, me acostumou a dormir com o cheiro dele impregnado no meu travesseiro.
E agora, nem que eu queira muito, eu consigo pregar os olhos à noite sem que ele esteja por perto. E olha que eu tentei.
- Mas se ela reapareceu e fez essa ameaça a ponto de o Cael entrar em colapso, tem que ter rastros - afirmo, girando o copo de papel quase no fim. - Mensagens, e-mails, documentos... Ninguém é tão perfeito ao ponto de chantagear alguém como o Cael sem deixar uma pegada. Sempre tem algo.
- E tem. Eu sei que tem - Mia diz, os olhos faiscando enquanto calcula os próximos passos. - Mas não está aqui no hospital. O celular pessoal do Cael e o notebook confidencial dele ficaram trancados no escritório da mansão. Na noite em que ele desabou, o Sebastian recolheu as coisas dele e trancou tudo lá. Meus irmãos andam agindo como seguranças de máfia nos últimos dias, trocando sussurros e me bloqueando de tudo porque sabem o que está acontecendo. Se aquela vaca entrou em contato, os registros estão naquela casa.
- Já temos um início - respondo, sentindo a adrenalina voltar a correr no meu sangue. - Nós podemos ir até lá e...

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