Hannah Brooks.
Em um momento eu estava ali, ajoelhada ao lado de Cael, sacudindo seus ombros e implorando para que ele abrisse os olhos, tentando desesperadamente acordá-lo. No momento seguinte, tudo à minha volta parecia ter se transformado em um completo e absoluto caos.
O mundo perde a nitidez, passando diante de mim em um borrão confuso de cores distorcidas, luzes vermelhas e sons abafados. Sinto meu corpo sendo erguido do chão por braços firmes, enquanto as lágrimas tornam minha visão dolorosamente embaçada. O que diabos estava acontecendo? Para onde estavam levando ele? Tento fixar meus olhos na figura de Cael, que agora está sendo colocado às pressas em uma maca fria de metal.
Os paramédicos se movem rápido demais ao redor dele, iniciando os procedimentos de intubação. Sua respiração está tão fraca, tão superficial, que por um segundo a minha própria garganta trava e o ar me falta. Um soluço estrangulado, doloroso, escapa dos meus lábios secos. As lágrimas turvam minha visão outra vez, e um nó sufocante vai se formando na minha garganta, enquanto internamente a mesma pergunta torturante ressoa em looping na minha mente.
Por que ele fez isso?
Não tinha motivos. Não fazia sentido. Eu... eu deveria ter percebido algo. Qualquer sinal, qualquer mudança no olhar, por menor que fosse. Mas, merda, ele não disse nada. Ele guardou tudo para si, ele não deixou escapar absolutamente nada atrás daquela maldita fachada de controle. Tomada pelo desespero, começo a me debater contra os braços robustos que me seguram por trás, tentando a todo custo me soltar daquele aperto sufocante para correr até a maca, para segurar a mão dele.
- Ele vai ficar bem, Hannah. - a voz masculina ecoa, vinda de algum lugar perto de mim, mas soa distante, como se estivesse debaixo d'água.
Eu não faço a menor questão de tentar descobrir quem está falando. Não me importa. Eu continuo a me debater nesses braços, gastando minhas últimas forças para escapar do aperto imposto a mim contra a minha vontade.
- Me solta... Eu preciso ir... Ele precisa de mim! - as palavras saem rasgando a minha garganta. - Por favor, me deixa ir com ele... - insisto, me debatendo outra vez, mas cada movimento parece cada vez mais inútil contra a força de quem me segura.
Observo, impotente, quando os paramédicos finalmente cruzam a porta do escritório, levando na maca um Cael completamente desacordado, com o pulso terrivelmente fraco. A partida deles deixa para trás apenas um silêncio sepulcral e sufocante no cômodo.
Meus soluços finalmente ecoam sem barreiras, quebrando o vazio que ficou no ambiente. Sinto um aperto tão grande e esmagador em meu peito que eu sequer saberia como descrever em palavras. É a angústia pura de vê-lo apagar daquela forma, o medo visceral de perdê-lo para sempre, misturados à culpa corrosiva por não ter percebido absolutamente nada antes que fosse tarde demais.
Será que eu poderia ter ajudado? Eu deveria ter percebido antes... Eu deveria ter feito algo... Eu deveria...
- Hannah. - a voz suave, vinda de algum lugar bem perto, me puxa bruscamente de volta, me tirando dos meus devaneios sombrios.
Forço-me a piscar e volto meus olhos marejados para a mulher à minha frente. Ela parece alguns anos mais velha do que eu, tem cabelos castanhos escuros e encaracolados que moldam um rosto expressivo, e veste roupas confortáveis que claramente foram vestidas às pressas no meio da noite. Pisco mais algumas vezes, lutando contra o cansaço para tentar reconhecer seu rosto. Levo as mãos trêmulas aos olhos, enxugando as lágrimas que ainda insistem em cair sem parar. Eu não a conheço intimamente. Bem, quero dizer, eu a conheço apenas de relance, por cumprimentos cordiais e formais em eventos passados.
- Beba, querida. Isso deve ajudá-la a se acalmar. - ela diz novamente, aproximando-se com cuidado.
Pisco mais uma vez, tentando realmente clarear minha mente nublada pelo pânico. Ela está segurando uma tigela de cerâmica que exala o aroma reconfortante de um caldo temperado, algo que cheira incrivelmente bem, mas o perfume da comida não é o suficiente para me fazer aceitar. Nada parece capaz de desatar o nó no meu estômago.

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