Seus cabelos estão levemente despenteados, e ela ainda usa as mesmas roupas elegantes com as quais havia saído de tarde para o spa. Ela parece menor, vulnerável, completamente sem chão.
- O que aconteceu? - São as únicas palavras que escapam da minha boca antes que eu possa contê-las. Já sinto o início de um desespero frio me inundar por dentro, mas tento me agarrar a qualquer resquício de calma para não desmoronar junto com ela.
- Cael... Ele... Ele tomou algo. Eu não sei, eu acho que ele tomou... Ele estava estranho, falando coisa com coisa e... E então ele apagou, Mia... Ele simplesmente apagou na poltrona e eu não sei o que fazer! Ele não reage a nada!
O desespero cortante em suas palavras me faz gelar por inteiro. O temor toma conta de cada músculo do meu corpo, e uma sensação terrível de déjà-vu recai sobre mim com o peso de uma tonelada, fazendo-me perder o ar.
De novo não. Por favor, de novo não.
- Amor...? - Ouço a voz distante de David vindo do notebook sobre a escrivaninha.
Encaro a figura trêmula e desesperada de Hannah. Não penso duas vezes antes de dar um passo à frente e sair correndo junto com ela pelo corredor, mas não sem antes me virar para trás e gritar em direção ao quarto, com a voz embargada pela dor do reconhecimento:
- Ele fez de novo, David!
Minhas palavras pairam no ar como uma sentença de morte antes de eu sair do quarto, batendo a porta com tudo atrás de nós. O som da madeira se chocando contra o batente ecoa como um tiro no corredor vazio.
Descemos as escadas correndo, nossos passos apressados ecoando pelo mármore frio em direção ao escritório dele no andar de baixo.
Sinto o peso de cada batida do meu coração, o peso de cada segundo precioso que parece estar correndo cruelmente contra nós enquanto cruzamos a mansão na penumbra.
Nossos passos apressados ecoam como tiros abafados no mármore do corredor. Hannah corre um pouco à minha frente, o desespero dela quase palpável no ar frio da casa. Eu a sigo, mas minhas pernas parecem pesar toneladas, como se eu estivesse correndo contra uma correnteza invisível de memórias que tentam me arrastar de volta para o fundo.
Três anos. Três malditos anos tentando esquecer o som daquela voz desesperada ao telefone, tentando apagar da mente a imagem do sangue misturado com álcool e comprimidos no chão do banheiro principal.
E agora, a história se repete na penumbra do escritório.
Hannah empurra a porta de madeira escura de uma vez. O rangido alto corta o silêncio e nós entramos.
O ambiente está exatamente como ela descreveu: quase completamente às escuras, exceto pelo brilho trêmulo e alaranjado que emana da lareira. No centro do cômodo, a silhueta de Cael está caída para trás na poltrona de couro.
A cabeça tombada de lado, os braços jogados ao longo do corpo. Um peso morto.
Hannah corre direto na direção dele. Ela cai de joelhos ao lado da poltrona, segurando as mãos dele, chamando seu nome em um sussurro que rapidamente se transforma em um choro engasgado.
- Cael! Cael, por favor... Olha para mim! Mia, me ajuda!
Eu dou dois passos para dentro do escritório e travo.
Meus pés simplesmente colam no tapete escuro. Sinto o ar faltar nos meus pulmões e meu peito se aperta tanto que chega a doer. O calor que vem da lareira de repente deixa de ser reconfortante; minha mente, em um mecanismo cruel de defesa, transforma aquele calor no vapor abafado do banheiro de três anos atrás.
O cheiro de madeira queimada se mistura, na minha cabeça, com o odor metálico e sufocante de sangue.
Estou tendo uma crise de pânico. Eu sei que estou.
- MIAAA! - o grito de Hannah corta a minha paralisia, mas não me move em direção ao meu irmão.
Meus olhos não conseguem focar em Cael. Em vez disso, meu cérebro treinado pelo trauma começa a fazer uma varredura mecânica pelo ambiente. Eu não procuro por ele; procuro pelo que causou isso. Busco os detalhes que a Hannah, em seu desespero cego, deixou passar.
Meus olhos varrem o chão perto da lareira. Sem sangue. Sem cacos de vidro de uma garrafa quebrada.
Então, desvio o olhar para a imponente mesa de carvalho escuro.

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