Hannah Brooks.
22h
Desço do táxi que me deixa nos limites da propriedade e caminho em direção aos grossos portões de ferro fundido da residência Sterling. O ar da noite está fresco, contrastando com o calor que ainda emana do asfalto.
Cumprimento com um aceno discreto os seguranças que fazem a ronda noturna pelo jardim impecável e sigo a passos firmes para a entrada principal. Empurro as portas pesadas de madeira maciça; o silêncio sepulcral da residência me atinge em cheio, como de costume.
É uma imponência fria que, antes, costumava me intimidar, mas que agora apenas me serve de cenário familiar.
Cael havia me dado a tarde de folga. Literalmente.
Theo teria uma atividade extra de última hora na colônia de férias e, ao perceber isso, ele simplesmente me entregou a tarde livre, um cartão black sem limites e duas reservas naquele spa magnífico - o mesmo que ele usou de forma tão calculada para "me comprar" da primeira vez que ficamos. Uma provocação silenciosa que eu, obviamente, não recusei.
E foi exatamente assim que eu arrastei Jane para mais uma daquelas tardes terapêuticas entre amigas, regadas a massagens e fofocas. Por fim, acabamos no apartamento que ela divide com Levi, dividindo uma garrafa de vinho barato e debatendo exaustivamente o caos maravilhoso que eu carinhosamente chamo de vida amorosa.
Mas a bolha de normalidade sempre estoura quando coloco os pés de volta nesta casa.
Caminho a passos tranquilos ignorando às escadas de mármore, e seguindo pelo corredor imenso até a porta do escritório dele. Ou, como eu carinhosamente apelidei na minha mente, o seu santuário particular. Tudo ali dentro remete à personalidade dele: a sobriedade, os tons escuros, a simetria quase obsessiva.
Mais do que isso, ninguém na casa tem permissão para mudar um cinzeiro de lugar sem que ele autorize previamente.
Ninguém, vírgula. Já que o próprio Cael me entregou uma chave daquele espaço para quando eu quisesse - palavras dele - resgatá-lo de seus próprios demônios.
Um evento que, para ser sincera, vem acontecendo com uma frequência alarmante ultimamente.
Meus dedos tocam o metal frio da maçaneta. Giro-a devagar, percebendo que a porta está destrancada. Empurro a folha de madeira lentamente, o rangido suave e quase imperceptível ecoando no silêncio do corredor.
Meus olhos varrem o cômodo na penumbra, fracamente iluminado apenas pela luz bruxuleante que vem da lareira.
Meu olhar logo pousa na silhueta robusta sentada em uma das poltronas de couro esuro posicionadas estrategicamente próximas ao fogo, onde as chamas dançam e projetam sombras distorcidas pelas paredes de livros. Entro sem fazer barulho, fecho a porta atrás de mim para isolar o resto do mundo e caminho a passos tranquilos em direção a ele.

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