Cael Sterling
Sterling
23h47.
A casa está silenciosa, toda ela na verdade. O silêncio que se instala pelos corredores agora é quase palpável, um contraste brutal com a gritaria que dominou a maior parte do meu domingo.
Foi um dia bem exaustivo, repleto de correria desmedida e de um caos generalizado envolvendo a bendita maquete de arte dos garotos que, no fim das contas, por pura intervenção de alguma força divina ou do destino, deu surpreendentemente certo.
Isso tudo depois do caos absoluto instaurado na sala de jogos no andar de baixo, é claro; isso agora é apenas um mero detalhe decorativo na minha memória.
Hannah me fez dar banho sozinho no Theo pela primeira vez em meses, eu acho. Certo, foi um verdadeiro inferno. O garoto tinha grãos de areia colorida impregnados na pele e folhas secas presas no couro cabeludo, tudo isso misturado de forma homogênea ao corante gosmento e ultra-pigmentado de Mia.
O que, agora, me garantiu uma bela e dolorosa nota mental sobre nunca mais, sob hipótese alguma, deixar ele encostar a ponta dos dedos em uma caixa daquelas coisas de confeitaria.
Theo ainda está com os cabelos visivelmente verdes, parecendo um astro do rock mirim prestes a entrar no palco. Não teve quantidade de água morna ou de shampoo infantil certo que conseguisse remover por completo aquele verde-floresta do cabelo dele.
Bem, ainda tem o fato incômodo de que a pele dele, em alguns lugares bem específicos como atrás das orelhas e nos cotovelos, ainda possui um leve tom esverdeado que quase me fez arrancar os meus próprios cabelos de pura frustração durante o banho.
Maldito corante importado.
Isso me serve de lição definitiva.
Nota mental: não deixar ele encostar nos corantes de Mia outra vez. Nunca mais.
E eu nem devo cogitar fazer isso, ou ela me castra sem a menor hesitação. Sim, a minha própria irmã ameaçou aniquilar toda a minha futura descendência se eu ousar deixar o Theo mexer nas coisas profissionais dela outra vez e, para o meu completo azar, a Mia costuma cumprir cada uma de suas ameaças mais absurdas com um sorriso no rosto.
Bem, agora o Theo está dormindo profundamente em seu quarto, com a respiração calma e totalmente alheio ao caos apocalíptico que causou no andar de baixo.
O David e o Henry foram embora há algumas horas, deixando um rastro de destruição azul para trás. A Mia disse com a maior cara lavada do mundo que dormiria no próprio apartamento esta noite e aproveitou a carona dele para ir embora.
Eu não acredito em uma única palavra dela, obviamente, mas estou tentando ativamente me convencer de que o meu melhor amigo de infância não está pegando a minha irmã caçula pelas minhas costas.
Porque, sinceramente, a minha vontade real é socar a cara do David até ele esquecer o próprio nome, mas, por enquanto, eu preciso ter certeza absoluta antes de cometer um crime contra o meu sócio.
O barulho quase imperceptível de passos suaves contra a madeira me tira dos meus devaneios noturnos. Antes que eu consiga me virar para olhar, sinto os braços dela envolverem a minha cintura, deslizando com suavidade por baixo da minha camisa.
A sensação da pele macia dela contra a minha traz um alívio imediato para a tensão do meu dia, enquanto o cheiro familiar de rosas paira sobre o ar fresco da noite que entra pela janela.
Ela apoia a cabeça em minhas costas por alguns segundos, apenas aproveitando o silêncio da casa, antes de fazer a volta em meu corpo e se enfiar com naturalidade no espaço entre mim e o parapeito da varanda, me encarando de baixo para cima.
- A insônia resolveu dar as caras outra vez? - a voz dela ecoa, repleta daquele tom leve e divertido que ela sempre usa quando quer me provocar.

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