Cael Sterling.
Péssima ideia.
Sem duvidas, foi uma péssima ideia em níveis quase artísticos levar Theo à lanchonete… e pior ainda ter aberto a boca para soltar aquela besteira de que iríamos encontrar “a moça bonita da lanchonete” bem na frente dele.
Porque, sinceramente, o que se seguiu foi um espetáculo particular de constrangimento. Eu precisei passar as duas horas seguintes tentando convencer o meu próprio filho de que eu havia me confundido — confundido, veja só — enquanto ele se entupia de doces, sorvete e qualquer coisa carregada de açúcar que eu, em um universo minimamente responsável, jamais permitiria.
No fim, não consegui nem sequer vê-la.
Droga.
Eu realmente achei que, vindo mais apresentável do que na noite passada — cabelo no lugar, roupa decente, um mínimo de dignidade intacta — ela me daria a chance de explicar minha proposta. Achei que trazer Theo ajudaria. Que ele, com aquele jeito dele, arrancaria dela ao menos alguns minutos de atenção.
Ingenuidade minha.
Eu até preparei uma pasta. Documentos organizados, tópicos bem definidos, praticamente um PowerPoint impresso. Ridículo. Meticuloso. Desnecessário, ao que parece.
Tempo jogado fora.
E ainda assim… aqui estou eu.
De novo.
Dentro do carro, estacionado no mesmo lugar maldito, às 20h em ponto, com o motor desligado e a paciência por um fio, esperando ela sair. Porque, goste ela ou não, nós precisamos acertar os detalhes da contratação — e ela precisa entender que eu não tenho tempo a perder. Eu preciso que ela comece o quanto antes.
Sabe como são as coisas.
Minha vida não desacelera. Não abre espaço. Não espera ninguém se decidir. E Theo…
Theo precisa de uma babá.
E eu não posso me dar ao luxo de entrar em joguinhos. Não quando, na minha cabeça, isso já está resolvido. Ela só ainda não percebeu.
Cruzo os braços, o olhar fixo na porta dos fundos da lanchonete — aquela que dá direto para o estacionamento — quando ela finalmente se abre.
E lá está ela.
Sai carregando algo nas mãos, ainda presa naquele uniforme ridículo. Colorido demais, chamativo demais… incompatível demais com qualquer ideia de seriedade. Ela caminha até o contêiner de lixo atrás do estabelecimento, j**a o que tem nas mãos lá dentro com um movimento automático e desaparece novamente pela mesma porta.
Reviro os olhos, soltando um suspiro impaciente.
Minutos depois, ela surge outra vez.
Agora… diferente.
Roupas normais. Simples. Nada chamativo. Nada que chame atenção — exceto ela mesma, aparentemente sem fazer esforço algum para isso.
Diferente da noite passada, está sozinha.
Uma mochila pendurada nas costas, os ombros levemente tensos… e ainda assim distraída demais para alguém que claramente deveria estar mais alerta. Por Deus, como alguém consegue ser tão… desligada?
Ela desce do meio-fio sem olhar para os lados. Nem uma vez.
Inacreditável.
Reviro os olhos de novo, já sentindo a irritação familiar subir pela minha coluna. Dou partida no carro, o motor ronronando baixo enquanto deixo o estacionamento e entro na rua.
E então começo a segui-la.
Devagar.
Sem pressa.
Até que, em algum momento, ela finalmente perceba que não está mais sozinha.
Ela anda gesticulando, falando sozinha como se estivesse no meio de uma discussão acalorada… consigo mesma. As mãos se movem no ar, cortando o vazio como se houvesse alguém ali para rebater cada argumento.
Então ela ri.
Mas não é uma risada leve, nem genuína. É seca. Sem humor. Quase… deslocada. Como se tivesse perdido o timing da própria sanidade.
E então volta a falar.
Como se nada tivesse acontecido.
Inclino levemente a cabeça, observando com mais atenção.
Ela é mesmo maluca… ou está apenas fingindo?
Permaneço dirigindo devagar, mantendo uma distância segura — suficiente para não assustá-la, mas perto o bastante para não perdê-la de vista. Com um movimento quase automático, abaixo o vidro do lado do motorista, agora tomado por uma curiosidade que cresce a cada segundo.
O tal “diálogo” dela começa a chegar até mim em fragmentos soltos, desconexos… mas ainda assim estranhamente intensos.
— “Tá bom… você me ignorar e eu sou egoísta.”
Faço uma careta discreta.
— “Isso não daria certo.”
Certo para quem?
— “Eu já falei que não.”
Insistente, seja lá quem for o interlocutor invisível.
— “Você deveria ter vindo me buscar.”
Essa frase vem carregada de algo… mágoa, talvez. Ou frustração. Difícil dizer.
E então —
— “Claro que sim, por que eu tenho a palavra palhaça tatuada na testa.”
…
Pisco uma vez.
Duas.
Essa me pega completamente desprevenido.
Ela realmente tem a palavra palhaça tatuada na testa?
Franzo o cenho, tentando puxar da memória alguma imagem mais nítida dela, mas tudo que tenho são flashes rápidos demais, desatentos demais. Eu não a observei com o cuidado necessário.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo