POV Heitor Montenegro
O portão da mansão se fechou atrás de mim com o mesmo som metálico que eu ouvia desde a infância. Era como um ponto final, seco e definitivo, no fim de um dia que já tinha começado como um castigo.
O céu estava pesado, o ar úmido demais para uma noite de outono. A gravata me sufocava, o paletó parecia uma armadura mal ajustada, e o silêncio do jardim soava mais ameaçador do que qualquer reunião de negócios.
Entrei.
A casa estava acesa, o que já era um mau sinal. Naquele lugar, luz nunca significava acolhimento, apenas vigilância. E lá estava ela. Célia Montenegro. Sentada à cabeceira da mesa de jantar, com uma taça de vinho entre os dedos e aquele meio sorriso que nunca era só um sorriso.
Do outro lado, Leyla. Postura impecável, olhar fixo no prato, mãos repousadas no colo.
A cena era uma pintura de controle e desconforto. Um retrato de família que só existia por conveniência.
— Estávamos te esperando — disse minha mãe, sem levantar completamente o olhar. A voz era doce demais, ensaiada demais. — O jantar já está servido.
Tirei o paletó devagar, pendurando-o na cadeira. Quis responder algo, qualquer coisa, mas as palavras não vieram. Sentei. O garfo de prata já estava posicionado, o prato fumegando com alguma refeição que eu não lembrava de ter pedido.
O silêncio se estendeu, espesso. Só o som dos talheres quebrava o ar, num ritmo quase mecânico.
Célia foi a primeira a falar.
— Imagino que o dia tenha sido longo. — Disse sem olhar diretamente para mim, mexendo o vinho no copo, observando o reflexo rubro se mover. — Ultimamente você parece... cansado.
Dei de ombros.
— É o trabalho.
— Ah, claro. — Ela assentiu, mas o tom era uma provocação disfarçada de compreensão. — Sempre o trabalho.
Leyla manteve os olhos no prato, imóvel, como se cada célula do corpo dela soubesse que era melhor não respirar quando Célia falava.
Minha mãe pousou o copo.
— Sabe, querido, o casamento exige mais que longas horas no escritório. Não dá pra manter as aparências se um dos lados não faz o mínimo esforço.
— Mãe... — avisei, num tom de cansaço.
— O que foi? — ela perguntou, inocente. — Só estou observando. Sua esposa está aqui, linda, quieta, dedicada... — virou-se para Leyla, sorrindo com veneno — ...e ainda assim, parece invisível para você.
Leyla ergueu o olhar, rápido, e por um segundo, cruzamos os olhos. Havia dor ali. Dor e algo mais, um cansaço parecido com o meu.
— Eu já disse que não quero falar sobre isso — retruquei.
— Claro. — Célia sorriu, mas os olhos dela cintilaram como lâminas. — Você nunca quer falar sobre nada. É um traço seu, desde pequeno. Prefere deixar as coisas apodrecerem até se tornarem impossíveis de resolver.
Os talheres tilintaram. Leyla pigarreou, tentando quebrar o clima.
— Talvez devêssemos...
— Não, querida. — Célia levantou uma mão suave. — É importante que ele ouça. — Olhou para mim, o sorriso diminuindo. — Você não é o único que carrega esse sobrenome, Heitor. A forma como age reflete em todos nós.
— Eu sei — respondi, frio. — E sinceramente, às vezes queria que não refletisse.
Silêncio. Um silêncio que fez o ar mudar de temperatura.
Célia pousou o garfo, cruzou as mãos sobre a mesa e me encarou com aquele olhar calculado que sempre me fez sentir de novo como um menino de dez anos.
— Cuidado com o tom, filho. Você anda esquecendo quem o pôs onde está.
Meu maxilar se contraiu. Engoli as palavras que queriam sair. Ela venceu. Como sempre.
Terminei o prato em silêncio. Leyla fingiu comer também, mas o garfo tremia um pouco. Logo após terminar, ela subiu para o quarto.
Depois de um tempo, empurrei o prato e me levantei.
— Vou subir.
— Boa noite, querido — disse Célia, mas o “querido” veio carregado de ameaça.
Subi as escadas com o peso do dia e da vergonha grudados na pele. A casa parecia mais fria à noite, os corredores longos demais, cheios de ecos de conversas antigas. Passei diante do retrato do meu pai, aquele mesmo olhar severo me seguindo, um homem que nunca aprendeu a ser pai, e uma mulher que transformou o luto em manipulação.
O quarto estava semi-iluminado. Leyla estava de costas, diante do espelho, tirando os brincos. O cabelo solto caía sobre os ombros, e ela usava uma camisola simples, sem o artifício de sedução de outras noites.
Por um instante, fiquei ali, parado na porta, observando-a em silêncio. Era linda. Sempre foi. Mas havia algo quebrado nela, e eu sabia que a rachadura levava o meu nome.
— Você vai ficar me olhando? — perguntou, sem se virar.
— Eu... — hesitei, entrando devagar. — Eu queria conversar.
Ela ergueu o olhar pelo espelho.
— Agora?
— Sim.
— Eu te amei de verdade, Heitor. — As palavras saíram baixas, quase um sussurro. — E mesmo quando eu percebi que esse amor era uma sentença, continuei aqui.
Fiquei em silêncio.
— Sabe o que é pior? — ela continuou. — Ontem, por alguns segundos, quando você me olhou... eu acreditei. Acreditei que era comigo. Que, por um instante, eu era o que você via.
Engoli em seco.
— Leyla...
— Eu não quero o seu arrependimento. — Os olhos dela se encheram, mas a voz permaneceu firme. — Quero que um dia, quando olhar pra mim, pare de procurar outra pessoa.
Aquilo me desmontou. Dei um passo à frente, hesitando.
— Eu não sei se consigo.
— Eu também não — ela respondeu. — Mas a diferença é que eu ainda tento.
O silêncio que veio depois não era tenso. Era triste. Um tipo de cansaço que se instala quando as palavras já não têm força.
Ela subiu na cama, apagou a luz do abajur e virou-se de costas. Fiquei ali, parado, olhando para o contorno dela sob o lençol.
Fui até a janela. O jardim lá fora estava mergulhado em sombras. As luzes da cidade piscavam à distância, indiferentes à tragédia que era a minha vida.
Senti o peso no peito aumentar. O arrependimento, o amor, o orgulho, tudo misturado num nó impossível de desatar.
Abaixei a cabeça, fechei os olhos. E naquele instante, percebi que estava preso. Não só àquela casa, ou àquele nome. Mas a mim mesmo.
A culpa era uma prisão, e eu mesmo tinha trancado a porta.
Virei-me uma última vez. Leyla já dormia. Ou fingia dormir. Deitei no sofá do quarto, sem coragem de dividir o mesmo espaço no colchão. O silêncio me engoliu devagar.
E antes de adormecer, pensei em Célia. No olhar satisfeito dela. A mulher que sempre soube manipular a dor dos outros como quem move peças num tabuleiro.
Ela devia estar no quarto dela agora, com aquele sorriso vitorioso, acreditando que tinha tudo sob controle.
Mas algo dentro de mim se moveu. Um cansaço diferente. Um cansaço que vinha com a forma sutil de uma decisão.
Talvez eu não pudesse mudar o que aconteceu.
Mas podia, enfim, decidir o que faria com o que restava de mim.

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