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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 184

Pov Heitor Montenegro

A primeira coisa que senti foi o gosto. Amargo. Metalizado. Whisky e arrependimento.

A segunda coisa foi o silêncio. Pesado, denso, como se o ar do quarto tivesse sido sugado por um vácuo invisível. E a terceira... foi o peso. Um corpo ao meu lado. Um perfume doce demais para ser natural. E uma memória que começou a se formar na minha cabeça, como um pesadelo voltando à tona.

Abri os olhos. O teto girou por um instante, e o sol que entrava pela fresta da cortina me feriu como uma lâmina. Pisquei, tentando focar. O quarto estava uma bagunça, os lençóis revirados, uma taça caída no chão, a garrafa de whisky aberta sobre a mesa.

E então eu a vi. Leyla. Deitada de lado, os cabelos espalhados no travesseiro, o rosto sereno, quase bonito, sob a luz da manhã.

A respiração dela era lenta, tranquila, como se dormisse há séculos. Como se o mundo fosse apenas paz. O estômago se contraiu. A garganta se fechou.

Afastei o lençol num movimento brusco, e o frio da manhã bateu contra minha pele nua. Sentei-me na beira da cama, as mãos apoiadas nos joelhos, o coração martelando no peito. Por um momento, pensei, não pode ser o que parece.

Tentei convencer a mim mesmo de que havia dormido sozinho. Que a lembrança era um sonho, um delírio, qualquer coisa menos real.

Mas as imagens vieram. Uma após a outra. O corpo dela sob o meu. As palavras que sussurrei. O nome que pronunciei. Isa.

Meu Deus. Meu Deus. Enterrei o rosto nas mãos. A dor de cabeça latejava, mas era insignificante perto da dor que vinha de dentro.

Não era só culpa. Era nojo. Raiva. De mim, dela, de tudo.

O quarto parecia girar. Levantei-me cambaleando e fui até o banheiro. A luz branca me atingiu como um soco.

Olhei-me no espelho. O homem que me olhava de volta era um estranho. Olheiras fundas, olhos vermelhos, cabelo desgrenhado, e um corte fino no lábio inferior, provavelmente dos dentes dela.

Havia marcas no meu pescoço, no meu peito.

Marcas que não pertenciam à mulher que eu amava. Abri a torneira e deixei a água correr.

Molhei o rosto, tentando acordar, apagar, renascer, qualquer verbo que me tirasse dali. Mas não dava. Nada limpava o que havia sido feito. A lembrança veio inteira, de uma vez.

O bar. Os copos vazios. O rosto dela me chamando de volta pra casa. A confusão. O quarto. E então o engano. Eu a vi como Isadora.

Senti o chão fugir sob os pés. Apoiei-me na pia, respirando com dificuldade. Eu tinha feito amor, não, eu tinha pensado que fazia amor, com um fantasma. E usei a mulher errada pra tentar ressuscitá-lo.

O pior de tudo era que parte de mim tinha acreditado. Naquela hora, naquele delírio, eu jurei que era ela.

A voz, o toque, o perfume, tudo se embaralhou na mente embriagada de um homem que não soube lidar com a própria solidão. “Você tá aqui, Isa.”

As palavras voltaram, nítidas, cortantes. E então lembrei do olhar de Leyla. Da surpresa. Do instante em que ela percebeu. Meu Deus… ela sabia.

Segurei o balcão com mais força. O reflexo no espelho parecia zombar de mim, o herdeiro, o empresário exemplar, o homem controlado.

Um controle que agora era pó.

A porta do banheiro rangeu. Virei rápido. Leyla estava encostada no batente, com uma camisola nova, diferente da noite anterior.

O cabelo preso de qualquer jeito. O rosto calado.

Por um segundo, nenhum de nós falou. Só o som da água ainda escorrendo na pia.

— Você... — comecei, mas a voz falhou. Engoli em seco. — O que foi que eu fiz?

Ela não respondeu de imediato. Os olhos dela estavam marejados, mas não havia raiva. Era pior que isso. Era um tipo de resignação que me cortou por dentro.

— Você não lembra? — perguntou, num tom baixo, quase calmo demais.

Balancei a cabeça.

— Eu... lembro de pedaços.

Um silêncio. Ela cruzou os braços, e a toalha do banheiro começou a escorregar dos meus ombros. Eu a segurei, sentindo um frio repentino, não físico, mas de vergonha.

— Eu achei... — tentei dizer, e parei.

Como dizer o impossível? Como confessar que a confundi com outra?

Ela respirou fundo.

— Eu sei quem você achou que eu era.

Meu coração parou por um segundo. O ar ficou pesado. Os olhos dela não desviavam dos meus.

— Eu ouvi — continuou. — Ouvi quando você chamou o nome dela. Quando me olhou como se eu fosse ela.

A água ainda corria na pia. Pingava. Pingava. Cada gota parecia um lembrete do estrago.

Pensei em Isadora. No rosto dela, na voz dela, no amor que joguei fora por medo, orgulho, covardia.

E percebi que era isso, tudo que eu fazia desde então era punição. Eu mesmo me trancara nessa prisão, e agora arrastava Leyla comigo. Fechei os olhos, e a imagem de Isadora apareceu de novo.

Sorrindo. Intocável. Distante.

O tipo de lembrança que destrói, mas da qual a gente não consegue se libertar. Um som de passos me trouxe de volta.

Célia. A voz dela do lado de fora, falando com Leyla, palavras abafadas, sorrisos falsos. A normalidade voltando, o teatro recomeçando. E eu... eu era o personagem que esqueci como interpretar.

Levantei devagar. O espelho ainda me mostrava um homem despedaçado. Passei a mão no rosto, tentando recompor a expressão, ajeitei a toalha, e respirei fundo.

Saí do banheiro. Leyla estava sentada à penteadeira, o rosto neutro, as mãos sobre o colo.

Célia, de pé ao lado dela, virou-se para mim com um sorriso controlado.

— Dormiu bem, querido? — perguntou, como se o mundo fosse uma sala de chá e não um campo minado.

Eu apenas a encarei. E, por um instante, vi o quanto aquela mulher gostava de controlar o caos. Deus, como ela devia estar satisfeita.

— Vou trabalhar — murmurei, a voz rouca. — Preciso sair daqui.

Peguei a camisa jogada no chão e vesti sem olhar para nenhuma das duas. Mas antes de alcançar a porta, a voz de Célia me deteve.

— Heitor — ela disse, com doçura ensaiada. — Não precisa se preocupar. Agora as coisas vão entrar nos eixos.

Virei o rosto. O sorriso dela era uma faca.

— Entrar nos eixos? — perguntei. — Depois de ontem, nada mais tem eixo.

E saí. O corredor estava vazio, mas senti o peso dos olhos delas me seguindo. A cada passo, a consciência parecia me esmagar mais.

Quando cheguei ao fim do corredor, precisei parar e encostar na parede. A respiração curta. O peito pesado. A casa parecia sufocar.

Tudo cheirava a mentira, a poder, a dor. E no fundo da mente, a voz de Isadora voltava, suave, como uma lembrança antiga: "Você sempre vai fugir, Heitor. Até que não reste mais nada pra salvar."

Ela estava certa. E agora, talvez, já fosse tarde demais.

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