No auge do inverno, a Cidade R recebeu sua primeira nevasca do ano, cobrindo tudo de branco.
Na estrada da Serra de Santa Luzia, o vento uivava entre os galhos das árvores.
Flocos de neve batiam agressivamente contra a janela do carro.
Isabel Ribeiro estava encolhida no banco, apavorada.
Com uma mão, ela limpava o sangue que escorria da própria testa.
Com a outra, segurava o celular, tentando fazer uma ligação.
A pista escorregadia havia causado uma colisão na traseira.
Felizmente, o motorista foi rápido.
No instante em que bateram no guard-rail, ele virou o volante com tudo.
O carro colidiu contra uma árvore em vez de despencar do penhasco.
Se não fosse por isso, ela teria morrido ali mesmo.
Na quarta tentativa, a ligação finalmente foi atendida.
Isabel começou a falar, com a voz embargada e vontade de chorar.
— Sérgio...
Antes que ela pudesse terminar, a voz grave e impaciente de Sérgio Serra a interrompeu.
— Vou entrar em uma reunião agora, pare de ligar.
— Sérgio, você poderia... vir me buscar?
Mas o restante da frase nunca chegou a ser dito.
A resposta de Sérgio foi fria e dura, cheia de irritação.
— Não posso! Isabel Ribeiro, além de me perguntar que horas chego em casa e o que quero comer, você não tem mais nada para fazer da vida?
Era aquele tom que Isabel já conhecia até os ossos.
Mas, ao ouvi-lo naquele exato momento, doeu de uma forma insuportável.
— Não é isso... — A voz de Isabel saiu rouca, transparecendo toda a sua fragilidade. — Eu...
Sérgio não notou que havia algo errado com ela.
Sua voz carregava um riso de escárnio.
— Você fica em cima de mim o dia inteiro, querendo controlar até a cueca que eu uso. O seu único objetivo de vida é esse?
A respiração de Isabel travou.
A mão que pressionava seu ferimento escorregou de repente.
Seu coração começou a doer, uma dor densa e sufocante.
Ela já sabia há muito tempo que não valia nada aos olhos dele.
Mas ouvir isso da própria boca do marido era completamente diferente.
Por mais duro que fosse um coração, era impossível continuar indiferente ao ser tratada com tanto desprezo.
Houve um breve momento de silêncio na linha.
Isabel fungou e respondeu, com uma calma assustadora.
— O carro bateu. Eu queria que você viesse me buscar.
Ao ouvir isso, Sérgio hesitou por um segundo.
Mesmo assim, quando voltou a falar, sua voz continuava sem nenhum pingo de empatia.
— Não posso sair daqui agora. Peça para o motorista resolver isso.
A ligação caiu.
Isabel tremia da cabeça aos pés.
O sangue de sua testa continuava escorrendo pela lateral do rosto.
Hoje era o aniversário de Sérgio.
Também era o aniversário de morte da mãe dele, e por isso, ele nunca comemorava a data.
Há três anos, todo ano, Isabel subia a serra secretamente para ir ao mosteiro.
Ela ia pedir um amuleto de proteção para ele.
Ela sempre achou que, com o tempo, o gelo poderia derreter.
Mesmo que fosse só um pouquinho.
Mas agora, estava claro que não.
O motorista terminou de conversar com o outro condutor e entrou no carro.
A mulher saltitava como uma borboleta ansiosa.
Sua voz doce, manhosa e prestes a chorar soou cristalina no vento gelado.
— Sérgio, você finalmente chegou.
A mulher deu apenas dois passos antes de escorregar no gelo.
Ela caiu com tudo para frente.
Sérgio, que vinha andando a passos largos, correu apressado.
Ele a segurou antes que ela tocasse o chão, abraçando-a com firmeza contra o próprio corpo.
Isabel assistiu à cena dos dois abraçados ali na sua frente.
Seu coração encolheu bruscamente.
Ela desceu do carro bem a tempo de ouvir a voz do marido.
Era um tom de reprovação, mas carregado de preocupação e cuidado.
— O que você veio fazer na montanha com esse frio todo?
A mulher nos braços dele soluçou, soando frágil e mimada.
— Hoje é o seu aniversário. Eu queria pedir um amuleto de proteção para você... Não fica bravo comigo, tá?
Os longos dedos de Sérgio, que repousavam nas costas da mulher, hesitaram por um segundo.
Logo em seguida, ele os apertou com ainda mais força.
Qualquer um poderia ver que ele a segurava como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
O movimento de Isabel congelou ao lado da porta do carro.
Ela encarou os braços dele apertando a mulher instintivamente.
Viu o rosto dele ligeiramente inclinado, transbordando aflição.
Ela sentiu como se tivesse esquecido como respirar.
Sérgio nunca a tinha olhado com tanta preocupação em toda a sua vida.
Antes que Isabel pudesse processar o baque, uma voz infantil ecoou.
Aguda e inocente, quebrando o silêncio pesado com uma empolgação incontrolável.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Três Anos de Casamento Frio: Quando Pedi o Divórcio, Foi Você Quem Desabou