Lutando contra o nó na garganta, a voz de Isabel saiu levemente trêmula.
— E o meu projeto de design?
— Por que... você deu para ela também?
Aquele era o seu sangue. Eram os seus dias e as suas noites, todo o descanso sacrificado em nome de um trabalho.
Sérgio franziu o cenho.
— Isabel, o projeto foi feito com os recursos que a empresa injetou no Bela Vista. Ele é uma propriedade da empresa.
— Já que não vamos mais conduzir o projeto, aquele design não seria nada além de papel inútil aqui.
Ele soava tão cheio de razão.
— Então você fez um embrulho e deu de presente para a ex-namorada. — acusou Isabel.
— Não seja infantil. Eu vou compensar você com o bônus que lhe seria pago.
Sérgio se levantou, contornou a mesa e parou na frente dela. Sua voz era gélida.
— Se quiser mais alguma coisa, pode pedir direto. O seu pai está de olho no meu projeto de inteligência artificial faz um tempo, você pode aproveitar essa chance para cobrar o favor.
Isabel sentiu o sangue ferver na cabeça, reduzindo a sua sanidade a cinzas.
Ela deu um passo brusco para a frente e pisou com tudo no pé dele.
Com o salto alto. E, para finalizar, ainda girou o calcanhar com força.
Se não estivesse no escritório e não quisesse poupar o orgulho dele na empresa, ela teria desferido um tapa na cara, e não apenas um pisão.
Cresceu sem nunca passar vontade. Embora o pai e a avó não gostassem dela, o avô materno, a mãe, os tios, e até os primos a cercavam de amor e paparicos.
Em toda a sua vida, todas as humilhações que engoliu vieram exclusivamente daquele homem frio e sem coração.
— Porra...
Sérgio soltou um gemido de dor, empurrou-a para longe e recuou para o seu lugar.
A gatinha dócil de sempre agora parecia uma leoa enfurecida, fuzilando-o com o olhar.
Ele odiou aquilo.
— Isabel, coloque-se no seu lugar. O que a sua família já tirou de mim vale muito mais do que um Bela Vista!
A voz fria de Sérgio soou para ela como puro escárnio.
Aquele casamento era um capricho só dela, arrastando junto o fardo da família Ribeiro.
Para Sérgio, eles não passavam de parasitas que precisavam implorar por migalhas para sobreviver.
Que direito ela tinha de questioná-lo ali?
Isabel sentiu a força drenar do seu corpo. Com o rosto pálido como cera, abriu um sorriso autodepreciativo.
— Tem razão, Diretor Serra. Fui eu que não soube o meu lugar.
A expressão de Sérgio suavizou um pouco. Ele tamborilou os dedos na mesa, contendo a irritação:
Isabel nunca fora uma pessoa exatamente racional. Era melodramática, cheia de manhas.
Podia rir e chorar assistindo a uma novela boba. Na cama, tomava a iniciativa de seduzi-lo, mas ficava vermelha de vergonha quando as coisas esquentavam de verdade.
Se espetasse o dedo numa agulha, corria com os olhos marejados pedindo abraço.
Se o salto fizesse bolha no pé, dava um jeito de obrigá-lo a carregá-la no colo.
Para ele, ela era apenas covarde e mimada.
Claro, tudo isso acontecia quando estavam a sós. Por isso ele nunca duvidou de que Isabel o amava cegamente e adorava ficar grudada nele.
Mas, para ele, a birra que ela estava fazendo naquele momento passou dos limites.
— Isabel, todo chilique tem limite, então pare por aí. A minha paciência tem sido muito testada desde ontem à noite.
Olhando fundo naqueles olhos frios, o amargor invadiu o peito dela.
O quão desprezível ela era na cabeça de Sérgio, para ele achar que ela devia engolir tantas humilhações de cabeça baixa?
— Sérgio, estou falando sério. Pense a respeito.
O rosto de Sérgio virou puro gelo.
— E o seu pai, já concordou com isso?
Ele sabia exatamente onde machucar. Não só Leonardo Souza não concordaria com aquilo, como, se soubesse, faria o possível e o impossível para impedi-la.

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