Ela andava mais devagar do que uma verdadeira pessoa cega.
De repente, sua última gota de energia se esgotou. Com um baque surdo, suas pernas fraquejaram e ela caiu de joelhos na neve.
Ela estava decidida a não entrar em contato com José Domingos.
Aquele homem já a havia esfaqueado no coração, mutilando-a corte por corte.
Sempre que ela pensava que ele havia chegado ao limite da crueldade, no segundo seguinte, ele superava o próprio recorde, atingindo um novo patamar de canalhice.
O quão miserável ela precisava ser para implorar que José Domingos a tirasse do inferno, sendo que foi ele mesmo quem a empurrou para o abismo?
— Vânia Viana, levante-se... volte andando sozinha. — Vânia Viana sussurrava para si mesma enquanto continuava de joelhos no chão, de cabeça baixa, cravando as mãos desesperadamente no chão sem conseguir levantar. — Não seja tão fraca... não seja tão inútil!
De repente, uma luz branca incandescente a engoliu como uma rede caindo do céu.
Foi então que ela percebeu que havia um carro atrás dela. Estava a seguindo o tempo todo.
Vânia Viana piscou os olhos com força e ergueu a cabeça lentamente.
O homem diante dela era alto e imponente. Os músculos largos de suas costas delineavam a silhueta impecável do terno, exalando uma tensão que era, ao mesmo tempo, selvagem e controlada.
Aquela silhueta era idêntica à de João Freitas.
Vânia Viana soltou um sorriso amargo de zombaria.
Ela devia estar alucinando de dor. Como poderia ser João Freitas, o homem que a odiava até os ossos?
— Jo... vem mestre... Freitas? — Vânia Viana murmurou de forma desconexa, com os lábios roxos de frio.
— Rafael Freitas? Acha que ele consegue ficar de pé?
João Freitas mantinha uma mão no bolso, olhando para ela com frieza glacial. — Só porque você é cega, achou que um aleijado viria te salvar?
— É tão fácil assim para deficientes confiarem uns nos outros?
O corpo alto e robusto dele serviu como um escudo, bloqueando a neve e o vento que a castigavam.
Vânia Viana ergueu o rostinho vermelho de frio e olhou silenciosamente para João Freitas.
O homem em meio à tempestade de neve e o homem em meio ao incêndio daquela noite de repente se fundiram em um só.
Ela sabia muito bem que ele a odiava.
Mas, naquele momento, era como se ela estivesse vendo um deus vindo resgatá-la de seu sofrimento. Uma ardência súbita tomou conta de seu nariz, e as lágrimas transbordaram de seus olhos.
João Freitas abaixou a cabeça para encará-la. Soltou uma nuvem de fumaça branca e seu olhar escureceu.

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