Vânia Viana jazia de costas sobre a neve. O céu noturno parecia uma mancha espessa de tinta preta, que se misturava ao vermelho vivo de seus olhos injetados, criando um quadro sufocante de desespero.
O sangue escarlate escorria de sua testa. Cada gota vermelha manchava o chão branco.
O único som que conseguia ouvir era o estalo abafado do próprio sangue quente derretendo os cristais de gelo sob sua cabeça.
— Sua desgraçada! Mesmo que você morra aqui esta noite, eu não vou perdoá-la! Mesmo que vire cinzas, nunca terá o meu perdão!
Laura Rodrigues rugia para Vânia até perder a voz.
Zoé Cavalcanti a puxou com força, morrendo de medo de que a cunhada fizesse algo ainda mais aterrorizante na frente do avô e da avó.
— Diretor Freitas, a Srta. Viana está largada lá no chão, sem se mexer. Será que aquele golpe não causou um dano sério de verdade? — Ivan já mostrava tensão na voz.
O belo rosto de João Freitas transparecia um frio glacial. A escuridão em seus olhos afiados parecia gelar o ar ao redor.
— Se ela morrer, ligue para José Domingos e mande ele vir recolher o cadáver.
Ivan abriu a boca, mas hesitou e engoliu as próprias palavras.
Na noite do incêndio na boate Lumina, Ivan havia entrado no escritório para levar uma taça de vinho ao diretor Freitas e o flagrou acidentalmente trocando de roupa.
O torso forte e bem definido do chefe estava nu, mas em suas costas largas havia um ferimento enorme, inchado e arroxeado. Uma queimadura apavorante!
Ele lembrou que, durante o incêndio na Lumina, o diretor Freitas desaparecera por um tempo. Quando voltou, tinha um semblante estranho. Seu terno impecável e intocável estava completamente coberto de cinzas e poeira.
Logo em seguida, a Srta. Viana foi resgatada pelos bombeiros.
Havia uma enorme chance de que o resgate de Vânia estivesse diretamente ligado ao diretor Freitas.
Mas Ivan simplesmente não conseguia entender. O diretor Freitas não odiava Vânia Viana até a alma?
Sendo assim, por que se daria ao trabalho de salvá-la de um mar de chamas? E, se não queria que ela morresse, por que estava assistindo a Laura Rodrigues torturá-la esta noite, a ponto de deixá-la agonizando, e se recusava a intervir?
Dizem que o coração de um homem é insondável, como uma agulha no fundo do mar. Mas o coração do diretor Freitas era pior, parecia possuído. Imprevisível demais a cada dia que passava.
Vânia continuava estirada no chão frio, ofegando fracamente. Uma pequena névoa branca escapava dos seus lábios sem cor, dissipando-se rapidamente no ar gélido da noite.

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