Dentro do banheiro, Hera debruçou-se sobre a pia. Teve ânsias por um bom tempo até que, finalmente, acabou vomitando líquidos ácidos. As lágrimas jorravam descontroladamente. Apoiando-se com fraqueza na bancada, ela suportou a tempestade em seu estômago até que não restasse mais nada para expelir.
Por fim, abriu a torneira, pegou água fria com as mãos em concha e jogou no rosto para lavar as lágrimas.
O espelho refletia seu semblante abatido e de palidez cadavérica; seus olhos estavam vermelhos, mas seus lábios não tinham o menor sinal de cor.
Em contrapartida, a imagem cheia de vitalidade de Tereza, com os olhos límpidos, os lábios rubros e os dentes brancos, provocava em Hera uma aversão ainda maior.
Hera abriu a porta do banheiro e saiu.
Norberto aguardava do lado de fora.
Os dois trocaram um olhar.
Norberto, notando os olhos avermelhados dela e a pele branca como cera, franziu levemente a testa.
Hera baixou a cabeça; um sentimento esmagador de injustiça fez com que ela tivesse uma vontade repentina de chorar. Mas sabia que, naquele momento, não deveria transparecer qualquer emoção.
— Norberto... — A voz de Hera saiu num tom baixo e rouco, carregada de uma mágoa indescritível.
— Você está bem? — Norberto deu um passo à frente, perguntando com preocupação.
Hera meneou a cabeça e respondeu com um tom amargo:
— Estou bem. Talvez seja apenas um problema estomacal. Não se preocupe.
Fixando o olhar no rosto dela, Norberto questionou em tom de reprovação:
— Da última vez, não combinamos de a mãe te acompanhar até o hospital para exames? Por que você não foi?
Hera baixou os olhos, torcendo os dedos de maneira nervosa e inquieta, e murmurou:
— Norberto, você sabe que eu sempre tive muito medo de hospitais. Eu já me consultei, e me disseram que o alto nível de estresse ultimamente tem prejudicado o meu trato intestinal. Sério, não precisa se preocupar.
Norberto suspirou. Observar o rosto nitidamente mais magro de Hera e aquela aparente resistência forjada apenas evidenciava o quanto ela estava frágil e vulnerável.
— Volte para jantar. Se continuar se sentindo mal, pedirei para a mãe te levar ao hospital imediatamente. — Após essas palavras, Norberto virou-se e regressou à mesa.
Hera levou um baita susto. Ela não podia ir ao hospital de jeito nenhum. A gestação ainda estava numa fase instável e ela tinha pavor de que alguém descobrisse a verdade.
De volta à mesa, Hera tomou seu assento. Dessa vez, não ousou tocar em nada que contivesse a menor gota de gordura ou cheiro forte.
Com o rosto demonstrando apreensão, Jessica perguntou:
— Mamãe, e o papai? Ele não vai voltar com a gente?
Tereza lançou um olhar para Norberto.
Norberto interveio rapidamente:
— Delfina, o papai não tem ido à empresa esses dias, então talvez eu precise trabalhar até tarde hoje. Volte para descansar com a mamãe primeiro e prepare-se para as aulas de amanhã. O papai passará lá bem cedo para te acompanhar na matrícula.
— Está bem, mas você tem que prometer que vai comigo fazer a matrícula na escola amanhã! — Delfina estendeu o dedo mindinho, exibindo uma expressão de pura seriedade.
— Claro que sim, é uma promessa. — Norberto assegurou.
Tereza partiu da velha mansão levando Delfina consigo.
Às onze da noite, Tereza já havia feito a filha dormir. Em seguida, dirigiu-se ao seu escritório, fechando a porta com suavidade.
Sacou o celular e buscou o contato do advogado Raul.
Do lado de fora da janela, as luzes da cidade já haviam se apagado em grande parte. Na sua mente, desenrolavam-se repetidamente as cenas de Hera tampando a boca e correndo em disparada para o banheiro, juntamente com aquele olhar de Norberto, transbordando aflição e uma angústia profunda.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......