A cirurgia de Delfina foi marcada para o outono, ano em que ela completaria sete anos.
O som das folhas secas sussurrava lá fora, enquanto o longo corredor que levava à sala de cirurgia permanecia imerso em um silêncio absoluto.
Com três meses de antecedência, Norberto havia começado a contatar os melhores especialistas em cirurgia cardiovascular dentro e fora do país.
Eles avaliaram opções após opções de tratamentos.
E confirmaram exaustivamente cada risco possível.
Tereza revisou todo o material junto com ele inúmeras vezes, sem ousar relaxar por um segundo sequer.
Ambos pertenciam àquele grupo de pessoas que nunca pareciam ter medo de nada.
Eram orgulhosos, confiantes e donos da última palavra em suas respectivas áreas.
Contudo, naquele dia, os dois estavam aterrorizados.
Na noite anterior à cirurgia, Delfina foi instalada em um quarto particular e vestiu um pijama de hospital.
O tecido com listras azuis e brancas, largo demais, a fazia parecer ainda mais frágil e magrinha, com meia cabeça a menos de altura do que as crianças da mesma idade.
Com os cabelos presos em duas trancinhas, Tereza fazia companhia a ela enquanto liam um livro.
— Mamãe, agorinha mesmo pousou um passarinho ali. É tão alto aqui, ele é muito corajoso por voar até aqui em cima, né? — Enquanto folheava as páginas, a menina se distraiu de repente, olhou para a janela e apontou com o dedinho.
O coração de Tereza sentiu um aperto doloroso.
— Sim, o passarinho é muito corajoso. E a Delfina também é uma guerreira muito forte. — Ela puxou a filha para um abraço apertado, apoiando o queixo nos cabelos da menina.
— Mamãe, eu não vou morrer, vou? — perguntou Delfina em um sussurro, apoiada no peito da mãe.
— Claro que não. Você vai ficar muito bem, meu amor. O papai e a mamãe estarão aqui fora te esperando o tempo todo. — As lágrimas brotaram nos olhos de Tereza, mas ela as conteve com todas as forças, respondendo com a voz macia.
Delfina não disse nada por alguns instantes.
Então, ela esticou os bracinhos e abraçou o pescoço da mãe, agarrando-se a ela com força, muita força.
Tereza podia sentir o corpinho da filha tremendo; ela também estava morrendo de medo.
Finalmente, as lágrimas escorreram, e Tereza escondeu o rosto no ombro da filha, sem coragem de deixar o choro escapar.
Norberto estava parado na porta do quarto, segurando a janta nas mãos.
Ao se deparar com a cena das duas abraçadas lá dentro, decidiu não atrapalhar e encostou-se no batente da porta.
Ele testemunhou a luta de Tereza para segurar as lágrimas.
Os olhos dele também ficaram marejados.
A memória o transportou para o dia em que a filha nasceu; tão pequenininha, toda enrugadinha, berrando a plenos pulmões porque estava com fome.
Ele ficara paralisado, sem coragem de pegá-la no colo.


Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......