POV Lianna
A coletiva tinha acabado, mas o burburinho ainda ecoava pelos corredores do hospital. Já era fim de tarde, mas o som das câmeras, das risadas, dos sussurrosainda preenchiam minha mente. Aquela mistura de admiração e veneno que vinha no mesmo pacote desde que eu voltara a existir para o mundo.
Eu só queria sair dali. Trocar o salto pelo silêncio da minha casa, o flash das câmeras pelo barulho suave da chaleira fervendo.
Mas, claro, o inferno tem ótimo timing.
— Doutora Aslan. — A voz grave veio do corredor.
Virei e encontrei o inferno de terno. Zayden. Mãos nos bolsos, semblante frio, mas os olhos… aqueles olhos tinham raiva o suficiente pra incendiar um prédio.
— A direção quer falar com a senhora. — disse, formal, controlado demais.
— A direção? — ergui uma sobrancelha. — Ou o senhor Cross?
Ele manteve o sorriso de quem sabe o jogo que j**a.
— Os dois. A reunião é sobre “conduta pública”. — Fez aspas com os dedos. — Acho que você sabe o motivo.
Suspirei.
— Se for para me intimidar, não perca tempo. Já sobrevivi à sua casa. Seu conselho é um spa perto daquilo.
Ele riu baixo, um som rouco que me irritava por me afetar.
— Continua com a língua afiada. Vamos ver se ela é útil numa sala cheia de acionistas.
***
A sala de reuniões era toda vidro e frieza. Lá fora, Genebra brilhava como se zombasse de nós. Na cabeceira, o diretor tentava manter um tom neutro; ao lado dele, Viviane, evidentemente convidada só pra causar. E, claro, Zayden, reclinado, com aquele ar satisfeito de quem se acha dono do jogo.
A pauta era clara: “repercussão pública da coletiva”. Na prática: me calar.
— Doutora Aslan — começou o diretor, cauteloso. — O hospital preza pela imagem institucional. Sua resposta à doutora Weber foi… eloquente, mas—
— Necessária. — interrompi, sem desculpas. — E ética. Defendi meu trabalho. Nenhum paciente morreu de sinceridade.
Viviane bufou, teatral.
— Ética é uma palavra perigosa pra quem adora holofote.
— Perigosa mesmo, doutora Weber — rebati, calma. — Especialmente pra quem a usa sem entender o significado.
Zayden respirou fundo, contendo um sorriso.
O diretor tentou intervir:
— Senhoras, por favor...
Mas já era tarde. O clima virou pólvora.
— O que vocês querem, afinal? — perguntei. — Que eu peça desculpas por não abaixar a cabeça quando me atacam em público?
Zayden se inclinou pra frente, voz baixa e cortante:
— Queremos que você entenda que agora responde não só por si, mas pelo conselho que eu represento.
Ah. Então era isso. Controle. Sempre o mesmo jogo disfarçado de profissionalismo.
— Curioso… — murmurei. — O senhor fala como se mandasse em mim.
— Bom, a partir de hoje eu mando no hospital. — ele respondeu, direto.
— E acha que isso me assusta? — sorri de canto. — Eu já operei corações em colapso, Zayden. O seu não é exceção.
Silêncio. Viviane fingiu tossir, desconfortável. O diretor pigarreou.
— Acho melhor encerrarmos por aqui — disse, tenso. — Todos precisamos respirar.
Levantei, pronta pra sair, mas Zayden foi mais rápido. A mão dele segurou meu braço: firme, quente, possessiva.
— Lianna. — a voz dele baixou. — Um minuto.

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