POV Zayden
A sala de reuniões estava fria como sempre, com o vidro escancarando a cidade lá embaixo, um mapa que eu costumava dominar. Hoje, porém, o mapa parecia rir de mim. Uma pasta caiu sobre a mesa; a voz do meu advogado reverberou com aquele tom de quem tenta amortecer uma bomba.
— Senhor Cross… recebi a petição. A doutora Lianna Aslan entrou com uma liminar para bloqueio provisório de bens e pediu tramitação acelerada do divórcio.
Liminar. Bloqueio. Aquelas palavras tinham gosto de traição formal. Respirei devagar, o mundo girando mais devagar, como se alguém tivesse reduzido o frame da minha vida.
— Ela... entrou com liminar? — repeti, repartindo o ar como quem prepara um ataque.
— Sim. Alegações de risco patrimonial. Eles pedem tutela provisória sobre alguns ativos até que tudo seja decidido.
Senti o primeiro rolo de raiva subir do estômago à garganta. Não por ciúmes, isso já era água batida, mas porque alguém ousava mexer no meu tabuleiro enquanto eu dormia. Eu resolvia isso. Logo. Doía menos cortar alguém por dentro do que ver os próprios bens virarem peça de xadrez nas mãos de outrem.
— Preparem a contestação. E quero uma estratégia agressiva: contra-alegações, perícias, tudo. — ordenei, voz baixa. — E me trazem opções para pressionar ela publicamente. Que fique claro: quem mexe comigo paga.
Desliguei o telefone e fui direto ao hospital. Havia refúgios que eu costumava frequentar e pessoas que eu sabia manipular melhor pessoalmente. Se ela estava por ali, ia aparecer. Se não, eu buscaria a fraqueza onde ela menos esperava.
Ao chegar, encontrei corredores iluminados, rostos atentos, o cheiro forte de antisséptico. Procurei por ela com o mesmo instinto que costumo usar para achar falhas em negociações. Não a encontrei. Ela não aparecia onde eu imaginava. Frustração. Excelente combustível.
Fui até o quarto de Camille porque precisava de um rosto conhecido, um lugar para descarregar. Ela me viu e sorriu com debilidade, sorriso que sempre me comoveu pelo reflexo que devolvia do que eu queria ser.
— Zay... — falou, a voz tremendo.
— O que aconteceu? — perguntei seco, sentando ao lado da cama. Não estava ali por carinho. Estava atrás de ponto de apoio.
Ela me olhou com olhos de quem quer consolo e, desajeitada, tentou ser útil.
— Está tudo bem… só estou cansada. — falou.
— Cansada? — repeti. — Eu não vim aqui para ouvir "cansada". — Respirei fundo e expliquei, incapaz de fingir serenidade: — Lianna entrou com liminar, Camille. Bloqueio de bens. Aceleração do divórcio.
O rosto dela mudou. Era o efeito que eu buscava: perturbar. Ela tentou me consolar com memórias banais, mas a conversa virou rápido em veneno. Camille, numa impulsividade que sempre a caracterizara, começou a despejar julgamento barato sobre Lianna, “foi embora, sumiu, deixou tudo pra trás, voltou agora pra causar” e acrescentou o tempero que eu precisava para explodir.



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