POV Lianna
O dia amanheceu cinza. Não aquele cinza melancólico, mas o tipo que anuncia tempestade a qualquer momento. A mensagem chegou logo cedo, no grupo interno do hospital: “Reunião extraordinária às 10h. Presença obrigatória de toda a equipe sênior. Novo investidor apresentado.”
Revirei os olhos. Mais uma reunião corporativa que tentaria travestir poder de progresso. Mas a curiosidade, maldita e inevitável, cutucava no fundo da mente. Quem investe milhões num hospital sem ao menos avisar o corpo clínico?
Tentei não pensar nisso. Tinha pacientes a revisar, exames a checar. Mas o nome “investidor” começou a ecoar como um presságio.
Às 9h55, eu estava lá: mesa oval de vidro, paredes brancas, o logotipo da instituição gravado em aço escovado. O ambiente cheirava a café caro e hipocrisia. Adrian já estava sentado, revisando uma pasta. Sorriu quando me viu entrar.
— Dormiu? — perguntou, baixo.
— Dormir é um luxo que não estou me dando nos últimos dias... — murmurei, sentando ao lado dele.
Ele deu um meio sorriso, compreensivo, aquele olhar sereno que sempre me desarma sem esforço.
A diretoria entrou, pontual. O diretor-geral, senhor Weber, pai da sempre insuportável Viviane, ajeitou os óculos e pigarreou.
— Senhores, estamos aqui para oficializar uma nova fase do hospital. Um grupo internacional adquiriu parte significativa das cotas e nomeou um representante para o conselho. Alguém com experiência em gestão e... — ele pausou, teatral — ...interesse pessoal em fortalecer nossa imagem global.
O ar mudou. Um silêncio denso percorreu a sala. E então, a porta se abriu. O som dos sapatos ecoou antes do rosto aparecer. Meu coração parou por um segundo.
Zayden Cross.
De terno escuro, impecável, o mesmo olhar frio e confiante que eu lembrava, só que agora com a calma calculada.
— É um prazer estar de volta à Suíça. Agora, de uma forma mais profissional. — ele disse, com aquele tom suave e venenoso. — E um prazer ainda maior reencontrar alguns rostos conhecidos.
Meu corpo inteiro travou. Ele percorreu o olhar pela sala, cumprimentando todos, até parar em mim.
— Doutora Aslan. — falou, com um meio sorriso. — Sempre um privilégio dividir o ambiente com a melhor cardiologista.
Fingir neutralidade foi um ato de sobrevivência. Cruzei as pernas, endireitei o queixo e apenas disse:
— Senhor Cross. Que coincidência desagradável.
Alguns dos diretores tossiram para conter o desconforto. Adrian me lançou um olhar de alerta, sutil, “segura a onda”.
Zayden, claro, aproveitou o constrangimento com maestria.
— Ah, Lianna, não diga isso. O mundo corporativo é pequeno. E eu acredito em reconciliação. — Fez uma pausa dramática. — Profissional, claro.
As palavras caíram afiadas, mas disfarçadas de polidez.
— Espero que saiba que aqui a prioridade é o paciente, não o ego. — respondi, firme, sem piscar.
— E o lucro, doutora. Não esqueça dele. — rebateu, com aquele sorriso que sempre precedia desastres.
***


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