A revelação de Geraldo pairou no ar, tóxica e irrevogável. Clara sentiu o chão desaparecer. Toda a sua vida, a frieza de seu pai, a preferência óbvia por seu irmão... tudo de repente fazia um sentido terrível.
— É verdade? — ela perguntou, a voz um fio, olhando para a mulher que ela chamou de mãe por vinte e oito anos.
Lúcia desabou em uma cadeira, o rosto coberto pelas mãos, os soluços sacudindo seu corpo. — Sim.
Entre lágrimas de culpa e autopiedade, a história veio à tona. Lúcia e Geraldo tiveram uma filha biológica. Mas a mãe de Geraldo, uma mulher dura e supersticiosa, insistia que a família precisava de um herdeiro homem.
Quando o bebê nasceu, uma menina saudável, a avó a considerou um mau presságio. Em um ato de crueldade de uma era passada, ela vendeu a neta recém-nascida para uma família rica sem filhos, em troca de dinheiro para "garantir o futuro" de seu filho.
Poucas semanas depois, atormentados pela culpa, Lúcia e Geraldo encontraram um bebê abandonado, envolto em cobertores, perto da entrada de um convento. Era Clara. Eles a levaram para casa, um segredo para substituir o segredo, uma penitência que nunca conseguiram cumprir.
Clara ouviu a história, o coração se transformando em uma pedra de gelo. Ela não era uma filha. Era uma substituta. Uma sombra.
A dor era imensa. Mas com a dor, veio uma estranha libertação. Ela não devia nada a eles. As correntes da obrigação filial se partiram.
E com essa liberdade, veio a clareza. Ela tinha apenas duas pessoas no mundo para proteger agora: ela mesma e Thiago.
Ela deixou seus pais chorando no quarto do hospital e fez uma ligação.
Vinte minutos depois, ela entrou no quarto de hospital de Isabela Ferraz sem bater.
Isabela, que estava lendo uma revista, pulou de susto. — O que você está fazendo aqui?
— Eu vim te dar um aviso. — disse Clara, a voz desprovida de qualquer emoção. Ela parou ao pé da cama.

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