A luz da sala de cirurgia se apagou, e Clara Mendes sentiu o peso de sete horas de concentração desabar sobre seus ombros. Foi uma complexa embolização de um aneurisma cerebral, um procedimento que exigia a precisão de um joalheiro e a resistência de um maratonista. Ao remover a máscara, ela sentiu uma exaustão profunda, mas também a satisfação pura e inigualável de um trabalho bem-feito.
Ela se encostou no balcão da estação de enfermagem, bebendo lentamente um copo de água morna, tentando acalmar os nervos que ainda vibravam com a adrenalina.
—Ora, ora, se não é a nossa celebridade do hospital, a Dra. Mendes.
A voz, aguda e carregada de um sarcasmo infantil, cortou sua breve paz.
Júlia Montenegro, seguida de perto por Isabela Ferraz, caminhava em sua direção. Júlia parecia uma pavão, o queixo erguido em arrogância. Isabela, como sempre, era sua sombra, um sorriso gentil e venenoso nos lábios.
Clara apenas lançou um olhar cansado na direção delas e voltou a beber sua água, sem intenção de engajar na conversa. Sua indiferença era uma armadura que ela havia forjado recentemente, e era surpreendentemente eficaz.
A falta de reação de Clara enfureceu Júlia, que esperava lágrimas ou uma discussão acalorada.
—O que foi? Fez algumas cirurgias e agora se acha importante demais para falar com as pessoas? — Júlia parou na frente dela, a voz se elevando, atraindo os olhares curiosos de enfermeiras e médicos que passavam.
—Não se esqueça de quem você é. Você não passa de uma mulher desesperada que se agarrou à primeira oportunidade que viu!
Isabela colocou uma mão no braço de Júlia, um gesto de falsa moderação. — Júlia, querida, aqui não é o lugar...
—É o lugar perfeito! — Júlia se exaltou, a inveja do status recém-adquirido de Clara no projeto de Dona Helena ainda a corroendo. — Você acha que não sabemos da sua história? Assim que meu primo e a Isa tiveram uma pequena briga, você agiu como uma mosca no mel! Se jogou para cima dele, se agarrou, usou todos os truques mais sujos para forçá-lo a se casar com você!

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