Clara não era uma vítima. Ela havia aprendido, da maneira mais difícil, que esperar por justiça era inútil. Ela teria que criar a sua própria.
Naquela mesma tarde, ela saiu do hospital e caminhou por dois quarteirões até encontrar um telefone público antigo. A sensação do receptor de plástico frio em sua mão era anônima, segura. Com uma voz ligeiramente alterada, ela discou o número da linha direta de denúncias da polícia federal. Ela deu um nome, Dr. Farias, e sugeriu que investigassem suas finanças, especificamente pagamentos de grandes empresas farmacêuticas em troca da aprovação de medicamentos superfaturados no hospital. Ela não tinha provas concretas, mas os boatos sobre a corrupção de Farias eram antigos e persistentes. Ela apenas deu à polícia um lugar para cavar.
Dois dias depois, o inferno desabou.
Dois policiais federais à paisana entraram no Hospital Santa Catarina no meio da manhã. Eles foram diretamente para o escritório do Dr. Farias e o escoltaram para fora, na frente de dezenas de funcionários chocados. A acusação: corrupção e recebimento de propina.
A notícia explodiu. E com ela, o boato sobre Clara ser sua "amante" se tornou instantaneamente ridículo. Por que a amante denunciaria o homem que a sustentava? A lógica era simples. A mentira de Isabela, construída com tanto cuidado, desmoronou sob o peso de um escândalo muito maior e mais real.
A Sra. Farias, agora enfrentando o congelamento de bens e a desgraça pública, veio atrás de Clara novamente, desta vez acompanhada por Isabela.
—Foi você! — ela gritou, o rosto manchado de lágrimas e rímel borrado. — Você fez isso para se vingar!

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