A ironia final do boato de que ela era a "amante" de Arthur foi que, na verdade, ela mal o via. Após a noite bizarra em seu quarto de hospital, ele desapareceu. Clara se recuperou em uma solidão que era quase pacífica. A dor em seus olhos diminuiu, a vermelhidão cedeu, e com a visão clara, veio uma resolução ainda mais clara.
Na segunda-feira, ela voltou ao trabalho. O ar no hospital ainda estava carregado de sussurros. A história da "amante" era suculenta demais para ser esquecida. Ela ignorou os olhares e se dirigiu para seu pequeno escritório no pronto-socorro. Sua rotina era a única coisa que a mantinha sã.
Ela passou a manhã revisando prontuários, tratando de pequenos ferimentos, sentindo-se a quilômetros de distância do mundo de alta tecnologia da neurocirurgia. Era quase oito e meia quando uma enfermeira simpática, uma das poucas que ainda falava com ela, apareceu na porta.
—Dra. Mendes, a senhora não vai para a reunião da diretoria?
Clara franziu a testa. — Que reunião?
O rosto da enfermeira se contorceu em confusão. — A reunião das nove. A Dra. Ferraz convocou todos os chefes e assistentes seniores. Ela mandou o aviso no novo grupo de trabalho do departamento.
Novo grupo de trabalho. O coração de Clara afundou com uma familiar sensação de deja vu. Ela pegou seu celular. Nenhum convite. Nenhuma notificação. Era uma armadilha, tão infantil e, ainda assim, tão eficaz.
Ela olhou para o relógio. Oito e cinquenta e sete. A sala de reuniões ficava do outro lado do hospital.
Ela chegou às nove e dez. A porta da sala de conferências estava fechada. Ela respirou fundo, recompôs a postura e bateu suavemente antes de entrar.

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